quinta-feira, 15 de junho de 2017

FARC-EP participa em Oslo Fórum 2017


A abertura do Oslo Fórum 2017 se deu nesta terça-feira com uma menção especial aos Acordos de Paz firmados entre as FARC-EP e o Governo da Colômbia. O chanceler norueguês Børge Brende enalteceu o acordado no ano passado e disse que se trata de um documento “inclusivo” e “completo”. Acompanhado no painel pelo ex-secretário de Estado estadunidense John Kerry e pelo atual chanceler iraniano Mohamad Yavad Zarif, Brende advogou por mais processos como o colombiano.
“Acordos de paz têm que ser bem aplicados. A implementação da paz é crucial. Quando estamos planejando a paz, tem que ser muito inclusiva”, afirmou. “Creio que a força do Acordo de Paz colombiano é que é muito completo. Agrega a sociedade civil, as mulheres, os põe à frente do processo. No mundo moderno também necessitamos de processos que são inclusivos”, finalizou.
Ao lado das três personalidades políticas, também estava Federica Mogherini, alta representante da União Europeia para Assuntos Exteriores e Política de Segurança.
Realizado numa propriedade perto do centro da capital norueguesa, sob forte segurança, o Oslo Fórum é um encontro organizado pelo Ministério de Relações Exteriores norueguês sobre resolução de conflitos e neste ano conta com a presença do máximo líder das FARC-EP, Timoleón Jiménez. O Governo da Noruega foi um dos garantidores do Acordo de Paz colombiano.
A delegação colombiana em Oslo, formada por parte do Estado-Maior Central das FARC-EP, entre eles Jiménez, Ricardo Téllez e Pastor Alape, ademais de Victoria Sandino, quem integrou a Delegação das FARC-EP em Havana, chegou na madrugada da terça-feira procedente da Colômbia. Na manhã de hoje, o grupo foi saudado por Brende.
No dia 14, a chanceler colombiana María Ángela Holguín e Jiménez participarão, ao lado do ministro norueguês, do painel “Colômbia: Pondo em Prática a Paz”, onde vão discutir os seis meses de aplicação de um acordo considerado exemplar mundialmente, segundo informou a Chancelaria norueguesa num comunicado. No dia seguinte, a mesma composição de personalidades fará uma palestra aberta na Casa da Literatura norueguesa. (Litteraturhuset).
 Tweets: Chanceler norueguês @borgebrende no #OsloForum: “a força do Acordo de Paz colombiano é que é muito completo” “O Acordo de Paz colombiano agrega a sociedad civil, as mulheres, os põe à frente do processo”: @borgebrende na abertura do #OsloForum “No mundo moderno também necessitamos de processos que são inclusivos”, disse chanceler norueguês @borgebrende ao comentar #PazEnColombi

terça-feira, 30 de maio de 2017

FARC-EP, 53 anos de luta pea PAZ.

Escrito por  Estado-Maior Central das FARC-EP
Sempre defendemos que o destino da Colômbia não pode ser a guerra. Não, não, NO! Temos que elevar a Colômbia desde o lodo da guerra para o cume da humanidade.

Companheiras e companheiros: 

Como resultado dos Diálogos de Paz de Havana e do respaldo majoritário da nação que nunca deixou de sonhar com uma pátria em paz e dignidade, se inicia um novo ciclo da história de resistência e luta armada das FARC, que se originou com o ataque militar a Marquetalia em 1964, a 27 de maio.
Antes do bombardeio e dos desembarques, Manuel Marulanda Vélez, Jacobo Arenas e seus companheiros tocaram todas as portas do diálogo para evitar o começo de uma nova etapa de guerra em Colômbia, porém pôde mais a intransigência local e a intriga do Norte que temia para a América continental a reedição da experiência da Revolução Cubana.

Remontando-nos no tempo, podemos observar a persistência consequente das FARC na busca de uma solução política àquela confrontação gerada pelos que, desde a morte do Libertador, impuseram a injustiça e a exclusão política em Colômbia.  

Sempre consequentes com o elemento essencial de sua estratégia, que é a paz, as FARC embandeiraram 5 intentos de solução política ao conflito interno da Colômbia.

Tentamos nos Diálogos de La Uribe durante o governo de Betancur, convertendo as FARC na plataforma de lançamento de um novo movimento político, a União Patriótica, que foi destroçada pela obsessão e a intolerância de setores militaristas do regime. Foram mais de 5 mil os assassinados e massacrados. Honra e glória aos que ofereceram sua vida sonhando com a Colômbia Nova.

Depois buscamos a reconciliação nas conversações de Caracas e Tlaxcala, esforço que foi afogado pela abertura democrática, o miserável neoliberalismo que nos arrebatou a esperança.

San Vicente del Caguán foi a persistência do sonho de paz das FARC frustrado uma vez mais pela perfídia de um mandatário conservador que só buscava ganhar tempo pensando na reengenharia de exército que lhe permitisse continuar e ganhar a guerra.

Porém, apesar das vicissitudes e tocados pela dor de pátria que esta prolongada confrontação produziu, conseguimos novamente acender a chama da esperança com os Diálogos de Havana onde pudemos finalmente firmar um tratado para a construção da paz estável e duradoura. 

Pensamos, quanto haveriam desejado nossos pais fundadores Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas, Afonso, Raúl, Jorge Efraín e outros companheiros protagonizarem a realização deste movimento histórico de seus sonhos. Eles, e todos os que ofereceram sua vida pela causa dos pobres, seguirão vivos nos sentimentos de concórdia das gerações vindouras.

As FARC não esquecem e evocam agradecidas o papel de Hugo Chávez Frías, comandante da Revolução Bolivariana de Venezuela, quem guiou os primeiros passos das partes contendoras para a Mesa de Diálogo. Obrigado, muito obrigado em nome da Colômbia, presidente Raúl Castro, pelo aporte de Cuba a nossa reconciliação. Noruega, Reino de Noruega receba nosso reconhecimento a seu importante papel na busca de paz. Presidenta Bachelet, presidente Maduro: a vocês que, em nome de seus povos nos acompanharam como anjos da guarda ao longo do processo, os levamos no coração.
Assistimos hoje como abismados ao trânsito da luta armada à conversão das FARC em partido político legal. A decisão foi tomada e referendada unanimemente pela mais elevada autoridade: a Conferência Guerrilheira. Agora necessitamos nos unir todos os que queremos pátria e humanidade para que a implementação dos acordos mude para melhor a vida dos colombianos.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, reconhecida autoridade mundial, verificará os compromissos de reincorporação e de respeito aos Direitos Humanos. Nos acompanharão também nesta árdua tarefa de consolidação da paz o querido Pepe Mujica e o ex-presidente Felipe González e uma constelação de organizações internacionais. Não estamos sós. O mundo dos sensatos está conosco.

Queremos recordar, no entanto, que o importante não é só firmar o acordo, mas sim cumpri-lo. Que a paz não é assunto de leis, senão de vontade política. Quanto ganharíamos os colombianos se conseguíssemos cortar pela raiz a intrincada engrenagem jurídica que ainda retarda a marcha da paz e a implementação do acordado...

Respaldados pelos avanços do acordo, em nome das FARC colocamos hoje em mãos do povo a potência transformadora que construímos ao longo de 53 anos de luta e resistência. O uso do direito universal à rebelião, ao levantamento armado contra a opressão de um povo foi um acerto porque isso gerou uma força intangível, se se quer, invisível porém poderosa, para que o povo colombiano reclame os direitos pisoteados por umas minorias privilegiadas.

Vamos para a política porque para isso são os processos de paz. Uma política não somente derivada da proposta de mudar balas por votos, senão que vai mais além do eleitoral e fixa seu olhar no futuro, no bem viver em democracia e dignidade das novas gerações. 

Enquanto avançamos para o Congresso Constitutivo do novo partido, preparamos nossas bandeiras que são os mesmos sentimentos do povo querendo tremular. Enquanto isso, como José Arcadio em seu laboratório de alquimia, preparamos a massa que há de servir para unir os sonhos dispersos de decoro e pátria para todos. Necessitamos da unidade como do ar para respirar.

Queremos que em Colômbia irrompa a abundância sonora da concórdia até que a inunde e a transborde mais além das fronteiras. Não somos os incendiários da inimizade entre os povos e sim os embandeirados do estabelecimento de relações de respeito e amizade com os vizinhos e nações do continente, os propagadores da solidariedade e do amor entre os povos, os sonhadores de um velho sonho de Pátria Grande que palpita no firmamento, e que nos momentos estelares da história nos recorda que unidos seremos fortes e mereceremos respeito; divididos e isolados, pereceremos.

Ninguém poderá contra a esperança se esta está encarnada em milhões de almas que reclamam humanidade e NÃO VIOLÊNCIA. A esperança nos pertence a todos; é do campesino e do empresário, do índio puro e do diretor de imprensa, dos jovens e das mulheres, do guerrilheiro, do militar e do policial. Também do paramilitar que não quer mais sangue. Do negro e do branco. A esperança é do cristão e é do opositor cego ainda pelo ódio, porque a paz é de todos. Ninguém pode ficar atrás do trem da paz que começou a andar.

Definitivamente, entre todos, podemos virar a ensanguentada página da violência que foi escrita com letras de exclusão e desprezo ao ser humano. Para isso, se necessita da VERDADE acerca do ocorrido ao longo deste triste conflito. Que ninguém tenha medo da verdade, que ninguém fuja dela como o diabo da cruz. Como diz Zaffaroni: há gravíssimas feridas que requerem da verdade para reconciliar, porque senão essas feridas se infectam. Queremos reiterar os sentimentos de Timochenko em Cartagena de Índias ao firmar o Acordo de Paz: perdão pelas afetações que tenhamos causado neste longo conflito, o mais prolongado de Nuestra América. Aquele que esteja sem pecado que atire a primeira pedra.

Que a comissão de seleção em sua sabedoria eleja aos integrantes da Comissão de Esclarecimento da Verdade e aos magistrados da paz da Colômbia. Sejam bem-vindos.

Algo nos diz que esse Governo tem as chaves para entregar à Colômbia inteira seu inalienável direito a viver em paz e dignidade. A consolidação da paz tem a ferramenta da Constituição e há que utilizá-la para evitar que qualquer irresponsável cumpra sua ameaça de torná-la colcha de retalhos. Enquanto a guerra é o fracasso do direito, a paz enaltece a vida, como diz Álvaro Leyva.

Sempre defendemos que o destino da Colômbia não pode ser a guerra. Não, não, NÃO! Temos que elevar a Colômbia desde o lodo da guerra para o cume da humanidade. Em muito pouco tempo, esperamos poder escutar a sinfonia de vozes da inclusão, que é a verdadeira democracia, proclamando que ganhamos a mais bela de todas as batalhas: a da paz.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A 9 anos da partida de Manuel Marulanda Vélez

 Fonte: www.farc-ep.co
Quatro meses depois do falecimento de nosso máximo Comandante e fundador, Manuel Marulanda Vélez, o General Álvaro Valencia Tovar, em sua coluna do jornal EL TIEMPO, publicou uma missiva dirigida a Alfonso Cano, novo chefe das FARC, na qual, após dar sua versão acerca dos fatos que precederam a ocupação de Marquetalia em 1964, o instava a se render e desmobilizar a força guerrilheira. Se baseava em seu próprio diagnóstico sobre o estado desta.
Em fins daquele ano, 2008, se conheceu a resposta de Cano, que levava o título de Conversações com o General Matallana, e que aparecia com a firma do Secretariado do Estado-Maior Central, sem dúvida para evitar envolver-se numa confrontação pessoal. Nela, Alfonso resenhava as profundas diferenças entre o afirmado por Valencia Tovar e o manifestado por Matallana em suas entrevistas com Jacobo Arenas e Manuel Marulanda em meados dos anos 80 em Casa Verde.
Valencia Tovar se esforçava por despedaçar aquilo dos 48 humildes campesinos agredidos traiçoeiramente em Marquetalia, para pôr em seu lugar um grupo de bandidos que vinham cometendo todo tipo de tumultos, ao tempo em que minimizava por completo a operação com a qual o governo da época intentou destruir aquela luta agrária, substituindo-a pelo desembarque de dois helicópteros Iroquois com 16 soldados sob o mando do coronel Matallana.
Alfonso, testemunha daquela conversação em Casa Verde, na mesma época em que nascia na vida política do país a logo martirizada União Patriótica, recordava como aqueles três grandes homens intercambiaram longamente, desprovidos de qualquer tipo de paixão, acerca de:
“…os milhares de soldados participantes, o plano e a execução do desembarque liderado pelo mesmo Matallana na parte alta do canhão, as manobras táticas desenvolvidas, as repercussões ocasionadas pelo assassinato de Jacobo Prías Alape em Gaitania a 11 de janeiro de 1960 executado pelos paramilitares, os deslocamentos campesinos, as numerosas agressões e fatos de guerra que desde aquele janeiro aziago sucederam na área incluindo operações, emboscadas e choques de encontro”.
E fazia a seguinte reflexão a propósito:
Histórica conversação de três guerreiros que respaldaram seus assertos com a própria vida nos campos de batalha, ministraram ordens e participaram de sua concretização, diálogo despojado de retórica, direto como deve ser entre combatentes, porém distanciado de ódios e recriminações sem pulhas nem altissonâncias, que exploraram, nesta ocasião, novos caminhos em busca da reconciliação de nossa sociedade”.
Para a consciência nacional ficaram as irônicas palavras com que o general Valencia pretendia convencer a Alfonso: “Vai ser você o coveiro de uma força em desmoralização total, ou o homem que num ato de coragem e de grandeza decida pôr fim a uma luta sem horizonte nem esperança, dando à sua figura um perfil de honra e dignidade? Se assim o decide, lhe ofereço o mesmo que a Carlos Pizarro”. Valencia Tovar conhecia muito bem o final de Pizarro.
Recordamos a propósito esta troca de cartas ao comemorar o nono aniversário da partida de Manuel Marulanda Vélez, ocorrida a 26 de março de 2008 em seu acampamento base das montanhas da Colômbia, em razão a que nele se encontra concentrado em grande medida o intenso debate histórico em torno da personalidade e obra do fundador das FARC, quem, graças a sua luta guerrilheira invicta de 60 anos, conseguiu apagar os limites entre realidade e legenda.  
Odiado e vilipendiado por aqueles que jamais puderam alcançá-lo com o fogo de suas armas ou pelo poder destruidor de suas infâmias, Manuel Marulanda ocupa o pedestal do herói campesino, do revolucionário invencível, do irredutível chefe rebelde que travou mil batalhas militares e políticas sem nunca ter sido derrotado. Ninguém na história universal se parece com ele. Nele se encarna a outra experiência da Colômbia, a resistência de seu povo violentado.
Ele mesmo relatou muitas vezes, sobretudo nos tempos do processo de paz do Caguán, a brusca mudança produzida no país quando os mais fanáticos setores conservadores decidiram desatar a fúria de seus ódios represados contra liberais e comunistas, em meados dos anos quarenta do século passado. O sangue destes últimos, que começava a inundar os campos em muitas regiões, se tornou em hemorragia geral após o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán.
Não havia outro remédio que lançar-se à montanha para salvar a vida, se organizar com outros para a defesa e preparar uma longa luta pela recuperação da paz perdida. Na época não era mais que um jovem que se somava às nascentes guerrilhas por puro instinto. Porém, ano após ano, lustro após lustro, década após década, iria assimilando a profunda responsabilidade histórica do caminho assumido. Se tratava da luta pelo poder, para fazer da Colômbia um país melhor.
Para isso havia que constituir um partido e começar a construção de um pequeno exército. Ou se conquistava as mudanças pelas quais clamavam os pobres e perseguidos do país pela via do diálogo civilizado e a concretização de acordos, ou teriam de se consumar pela via da insurreição armada do povo colombiano. O crime, como arma favorita para se sustentar no poder e excluir a inconformidade e a oposição da vida política, tinha que desaparecer definitivamente. Só assim seria possível pensar no debate pacífico e democr&aacut e;tico.
Seu encontro com Jacobo Arenas em abril de 1964, com quem até sua morte ocorrida em 1990 a escassos dias da Operação Casa Verde, compôs um binômio extraordinário de pensamento e ação, que o dotou dos elementos ideológicos e políticos que fariam dele o quadro revolucionário integral, capaz de criar pacientemente a força guerrilheira disciplinada e consciente, que, ao mesmo tempo em que combatia sem trégua, se empenhava em pactuar a paz.
Vinte anos depois de Marquetalia, Manuel Marulanda pactuou com o governo de Belisario Betancur os Acordos de La Uribe, que terminariam finalmente por colocar às claras o poder corrosivo dos inimigos da paz e da reconciliação no país, que sabotaram seu cumprimento, exterminaram a União Patriótica e conseguiram para seu benefício exclusivo que a guerra civil se prolongasse e aprofundasse a extremos impensáveis.
Apesar disso, Marulanda insistiu até o fim na solução política. Se envolveu sem vacilar nas conversações de paz com o governo de César Gaviria em Caracas e Tlaxcala, de novo desprezadas pela insensatez belicista dos mesmos setores violentos, e logo o país voltou a vê-lo no Caguán, liderando o processo de paz que os personagens do ódio, do ânimo de vingança e da ambição por despojar a terra aos campesinos humildes fariam naufragar.
Comemoramos o nono aniversário da passagem de Manuel Marulanda Vélez à imortalidade, com a satisfação de haver conseguido finalmente seu grande sonho, a firma de um Acordo de Paz.
Estamos polindo as armas da palavra, da ação política, da organização e da mobilização popular, que farão desnecessária a apelação ao combate e ao fogo em nosso país. Nossa grande tarefa, conseguir com que as forças que se empenham em insistir na violência sejam isoladas e vencidas pelas maiorias colombianas que estão pela paz e a democracia.
Não nos atemoriza que existam interesses que conspiram pela continuação do derramamento de sangue, sabemos que a nação colombiana lhes dará as costas. Por isso reiteramos as palavras finais empregadas por Alfonso ao responder a carta do general Valencia Tovar:
Acima das dificuldades, nosso compromisso por construir uma Nova Colômbia é irreversível, como o é nossa decisão de lutar pelo triunfo e alcançar a paz democrática, isto é, a justiça social”.
Manuel Marulanda vive na luta pela paz!
Juramos vencer e venceremos!
Cartagena de Índias, 26 de março de 2017.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Por que eles querem que o Brasil esqueça Lula?

Por Saul Leblon

Respira-se um cheiro azedo de fardas, togas e ternos empapados da sofreguidão nervosa que marca as escaladas de demolição do Estado de Direito nos solavancos da História.
Consulte os anos 30 na Alemanha, os 50 do macarthismo norte-americano, os 60 da ditadura brasileira, os 70 do massacre chileno...Há um clima de dane-se o pudor por parte das elites e da escória que a serve.

Faz parte desses crepúsculos institucionais a perda dos bons modos e a convocação das milícias, enquanto o jornalismo isento finge não ver a curva ascendente do arbítrio.  Com a mesma desenvoltura com que se anistia montanhas de dólares remetidos ao exterior,  classifica-se o MST como ‘movimento criminoso’.  Persegue-se e intimida-se estudantes secundaristas com lista de nomes exigindo que se delate endereços de colegas ocupantes ...  Invade-se a bala dependências e movimentos sociais e  de metralhadora em punho escolas tomadas por adolescentes que reclamam o direito de opinar sobre a própria educação.
 
Ensaios da orquestra.
 
Decibéis crescentes, afiados pelo mesmo diapasão ecoam de diferentes pontos do país.  Só não ouve quem não quer.
 
Há dinheiro, patrocínio e poder em jogo na incapacidade auditiva para ouvir os gritos da democracia sendo violada na sala ao lado de onde se discute a ‘reconstrução do Brasil’.  A conveniência reflete a insurgência que se esboça.  A resistência ao golpe escapa ao que se supunha ser o alvo isolado e triturado pela centrífuga da Lava Jato.  Adolescentes falam o que a vastidão dos votos nulos, brancos e abstenções cifraram nas urnas municipais, quando suplantaram os vitoriosos de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre...  Se as duas vozes se fundirem num idioma único, o que acontecerá?
 
O cheiro azedo exalado das fardas, togas e ternos de corte fino, empapados da sofreguidão  nervosa, reflete essa esquina incerta da História para a qual caminha o país.  A truculência policial e midiática sobe rápido os degraus da exceção.  Essa é a hora diante da qual a resistência progressista não pode piscar.  Daí a importância da campanha lançada neste dia 10 de novembro para sacudir a hesitação em defesa do óbvio.
 
O óbvio hoje começa por defender Lula.  Porque sem defender Lula, não será possível defender mais ninguém, e mais nada, do galope   desembestado da ganância no lombo da violência fardada e da cumplicidade togada.  Por ninguém, entenda-se o Brasil assalariado e o dos mais humildes.  A imensa maioria da população.  Aquela que vive do trabalho, depende de serviços públicos, tem seu destino  atado ao do país, ao do pre-sal, ao da reindustrialização,  ao da democracia social, carece de cidadania, respira salário mínimo e enxerga na previdência o único amparo à velhice e ao infortúnio.
 
Lula é a espinha histórica das costelas de resistência que precisam se unir para conter a demolição em marcha disso tudo.  Desempenha essa função por uma razão muito forte.  Essa que o milenarismo gauche parece ter esquecido --ou hesita em saber que sabe--  enquanto aguarda o juízo final  de Moro para recomeçar do zero.  ‘Recomeçar do zero’ é a profilaxia recomendada pelos sábios do golpe em todas as frentes.  Desde a demolição dos direitos trabalhistas, à revogação da soberania no pre-sal, passando pela Constituição de 1988, o Prouni, a previdência ...  Mas, principalmente: recomeçar do zero esquecendo Lula.
 
Porque ele é  –ainda é Lula--   a inestimável  referência de justiça social na qual a imensa parcela dos  brasileiros de hoje e de ontem se reconhecem.  É dele a voz que quando  fala e é ouvida  no campo e nas cidades.  Mais que simplesmente ouvida: respeitada e compreendida.  A diferença dessa voz é que ela não carrega só palavras.  Carrega experiência, luta, erros, acertos, raiva, riso, derrotas, vitórias, cujo saldo são conquistas coletivas encarnadas em holerite, comida, emprego,  autoestima e esperança.
 
É como se Getúlio Vargas falasse.  Ou Allende para os chilenos.  Ou Perón para os argentinos.  Ou Cárdenas para os mexicanos.  Com a vantagem avassaladora que tanto incomoda a elite.  Lula está vivo.  Caçado, esfolado, picado e salgado.  Mas  vivo.  Mais que vivo: ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto com as quais seus algozes testam a eficácia da chacina de reputação, a mais violenta desde Getúlio, que escandaliza a opinião jurídica e democrática do mundo.
 
Lula é a espinha dorsal de cuja destruição depende o êxito do torniquete implacável de interesses mobilizados contra a construção de uma democracia social na oitava maior economia do mundo, na principal referência da luta apelo desenvolvimento no espaço ocidental.
 
FHC disse em um debate no jornal O Globo, há cerca de quinze dias:   ‘Sem Lula o PT seria penas um partido médio; com ele torna-se um perigo nacional’.  No fundo quis dizer: ‘Sem Lula, o Brasil se torna uma nação média, humilde, bem comportada.  Com Lula, o Brasil se torna um gigante de soberania, com capacidade de aglutinação popular  e mundial em torno da justiça social –de consequências perigosas’. 

É claro como água de fonte.  Lula representa esse diferencial inestimável.  Ele fala com quem Malafaia  gostaria de falar sozinho.  Com o Brasil que os Marinhos gostariam de monopolizar sem dissonâncias.  Por isso o  milenarismo gauche que reage à ofensiva conservadora aceitando a pauta do juízo final de Moro,  flerta com a eutanásia.  ‘Recomeçar do zero’ é tudo o que o conservadorismo mais cobiça para quebrar o coração da resistência ao golpe.
 
O coração da resistência ao golpe consiste em não aceitar o fuzilamento sumário do legado de doze anos  de luta por um desenvolvimento mais justo e independente.  Ademais dos erros e equívocos cometidos inclusive por Lula  –que não podem ser subestimados e devem ser discutidos amplamente-- os acertos mostraram a viabilidade de se construir uma democracia social no Brasil do século XXI.
 
Não, isso não é pouco.  Olhe o mundo ao redor: isso é muito.  E, principalmente, tem lastro popular.  A sociedade marcada por uma das mais iníquas divisões de renda do planeta, referendou esse projeto por quatro eleições presidenciais sucessivas.  Duas com Lula; outras duas com Dilma, sendo Lula seu maior fiador e cabo eleitoral.
 
Sim, com erros, alguns grotescos.  Mas o fato é que a elevada probabilidade desse projeto ser revalidado em um quinto escrutínio presidencial, em 2018  --agora modificado pelo esgotamento do ciclo de alta nos preços das commodities, que lubrificou a resistência das elites aos avanços anteriores--  precipitou o golpe de 31 de agosto.  O milenarismo gauche quase esquece tudo isso enquanto aguarda o juízo final.  Nele, o juiz Moro e seus querubins  darão cabo de Lula e propiciarão aos sobreviventes o  único destino que lhes cabe: recomeçar do zero.  Ou até abaixo do zero.
 
Para quem sabe ter direito  –um dia— a mil anos de salvação individual e sobrenatural.  Milenaristas eram os pobres, os miseráveis brasileiros de Canudos.  Aqueles que aguardaram com Antônio Conselheiro a justiça divina sonegada pelo latifúndio e pela República que, afinal, destinou-os  à injustiça eterna.  É o que acontecerá de novo se o Brasil progressista aceitar a ideia de Moro de faxinar a história de sua ‘nódoa inaceitável’: Lula.
 
Se aceitar, o Brasil vai virar uma imensa Canudos, depois do massacre.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O novo acordo de paz e de esperança.



Escrito por  FARC-EP

Graças ao clamor do povo colombiano e produto da inquebrantável vontade de paz das partes, no passado 12 de novembro firmamos um Acordo definitivo para o fim do conflito. Estamos convencidos de que esta é uma vitória de nossos combatentes, do movimento social e popular e de todos os setores democráticos do país amantes da Paz.

A mobilização cidadã e os aportes recebidos vindos das mais diversas expressões sociais e políticas revigoraram e enriqueceram o Pacto de Paz, sem que este houvesse perdido sua essência lavrada em mais de 4 anos de diálogos.

É um acordo definitivo, inclusivo e com as vozes de todos e todas: dos múltiplos credos religiosos, das mulheres, da população LGTBI, da juventude e dos estudantes, dos partidos políticos, da academia, dos empresários, da ramificação judiciária, dos defensores de DDHH, de militares e guerrilheiros. Nele se consagram A Paz e a reconciliação para nosso povo, sem detrimento do conquistado em direitos por nenhum setor da sociedade.

Para os que acompanharam este importante processo de respaldo à paz e conquista deste acordo definitivo, a história e as futuras gerações guardarão infinitas gratidões e reconhecimentos.

O Acordo Final foi firmado em uso das faculdades constitucionais vigentes do presidente da República, em concordância com os procedimentos próprios do Direito Internacional Humanitário, e no marco da jurisprudência contida na sentença C-376/2016 da Corte Constitucional.

O Acordo fechado pelas partes no passado 12 de novembro é um acordo definitivo, subscrito como reza em seu Preâmbulo como Acordo Especial nos termos do artigo 3 comum aos Convênios de Genebra de 1949, para efeitos de sua vigência internacional.

A paz não dá mais espera nem suporta dilações.

Este Acordo definitivo espera agora sua referenda para dar passagem a sua imediata implementação pela qual clamam as maiorias nas ruas e praças da Colômbia.

O Acordo Definitivo não é uma ata de rendição da insurgência, nem do governo, e sim um grande consenso conquistado com a ampla maioria de setores sociais e políticos para terminar a guerra sem sacrificar a essência dos direitos reivindicados pela cidadania.

Uma leitura rigorosa do texto final deixa claro que, longe de qualquer artifício propagandístico, não se claudicou em nenhum dos pontos fundamentais que inspiraram nossa luta armada e que nos levaram a construir este caminho para a paz. A Reforma Rural Integral, a Abertura Democrática, a Solução política ao problema dos cultivos de uso ilícito, a Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição para as Vítimas, e o Enfoque de Gênero permanecem no documento.

Se garante igualmente a reincorporação dos integrantes das FARC-EP à vida civil e seu trânsito a movimento político legal em pleno gozo de seus direitos políticos, e se deixa para trás as saudades do direito penal do inimigo e de um sistema judiciário punitivista e carcerário, para dar passagem a um novo sistema de justiça restaurativa para todos os atores do conflito.

A necessária segurança jurídica de todo o acordado se mantém, ao se definir claramente que todos os conteúdos que correspondam ao Direito Internacional Humanitário o aos direitos fundamentais e seus conexos serão parâmetros obrigatórios para a interpretação e validez de todas as formas que regulamentam o acordo.

Ao conservar sua arquitetura fundamental, o Acordo definitivo possui a potência transformadora e democratizadora para deixar para trás a velha Colômbia de guerra e miséria.

Somos conscientes de que a possibilidade real de expandir a potência transformadora dos acordos descansa sobre sua legitimidade política e social, da decidida participação democrática em sua implementação e desenvolvimentos, para a qual convocamos desde já a todo o povo colombiano.

Esta firma não é o ponto de chegada nem para o país nem para nossa luta insurgente. É um passo mais na concretização do anseio de todos os colombianos e colombianas por viver numa Colômbia democrática, com justiça social. As FARC-EP seguiremos trabalhando incansavelmente por avançar no cumprimento do acordado e por prosseguir nossa luta por uma Nova Colômbia sem o recurso das armas. Por isso, reiteramos o chamado que fizéramos com o Governo a combinar com todas as forças vivas do país “um grande ACORDO POLÍTICO NACIONAL encaminhado a definir as reformas e os ajustes institucionais necessários para atender os desafios que a paz demande, pondo em marcha um novo marco de convivência política e social”, que permita continuar e consolidar esta onda de transformações em prol da reconciliação de nossa pátria que este Acordo de Paz já manifestou.

Secretariado do Estado-Maior Central das FARC EP.
15 de Novembro de 2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Discurso das FARC-EP no encerramento do acordo de paz definitivo.

DOMINGO, 13 NOVEMBRo 2016 04:15 escrito por farc-ep
DISCURSO DAS FARC-EP NO ENCERRAMENTO Do ACoRDO DE PAZ DEFINITIVO.
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Nossa saudação cordial ao ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, e por seu intermédio, aos comandantes Fidel e Raúl que generosamente ofereceram seu território e a logística necessária para que os colombianos resolvêssemos nossas diferenças; saúdo aos representantes dos países garantidores, Noruega e Cuba, que estiveram sempre ao lado dos plenipotenciários nos momentos mais difíceis e nos de satisfação impulsando contra vento e maré os avanços da Mesa; saúdo aos “anjos da guarda” do processo de paz, como denominara Roy Chaderton aos acompanhantes da República Bolivariana de Venezuela e da República do Chile. Em nome da Colômbia, gratos por nos ajudar durante tanto tempo a encontrar o caminho da reconciliação e da paz. Obrigado por sua imensa solidariedade.
Doutor Humberto de La Calle e representantes do Governo da Colômbia
Companheiros da Delegação de Paz das FARC
Compatriotas:
Trabalhamos de maneira incansável dia e noite para entrelaçar num só corpo de consenso os elementos do novo acordo final sobre o qual começaremos a edificação da paz estável e duradoura para Colômbia.
No dia de hoje, como resultado da inquebrantável vontade e decisão das partes, de sua perseverante busca de uma solução política à longa confrontação armada, apresentamos à nação colombiana o novo Acordo de Paz DEFINITIVO, que preferimos chamar de o ACORDO DA ESPERANÇA, poderoso instrumento para a democratização do país e para a materialização dos direitos das pessoas.
Foram semanas de árduo trabalho, de audiências sucessivas, de exercício humilde de ouvir com interesse e respeito, de interlocução com o mais amplo espectro do movimento social e político, e das igrejas. Foram semanas de muito difíceis porém frutíferas conversações com a delegação governamental que permitiram reafirmar a vocação de paz e reconciliação de um país, ao tempo em que possibilitaram compreender e esclarecer dúvidas e inquietudes razoáveis de diversos setores da sociedade, e também desvirtuar tergiversações e falácias a respeito do acordo subscrito no 26 de setembro passado na Cidade Heroica, Cartagena de Índias.
O resultado do plebiscito de 2 de outubro produziu um impacto, que, ademais de obstruir os mecanismos de implementação previstos, puseram em sério risco cinco anos de esforços na busca da reconciliação.
Porém, para felicidade de milhões de compatriotas, a paz continua sua marcha irrefreável, IRREFREÁVEL. As espontâneas e multitudinárias mobilizações sociais de apoio à paz ativadas pela juventude, as numerosas manifestações de organizações sociais e populares, de partidos e movimentos políticos, e o reiterado acompanhamento da comunidade internacional nos impelem a pensar que se iniciou a grande mudança histórica para uma sociedade autenticamente democrática, pacífica e justa.
Os resultados de outubro também nos levaram a pensar em sentido mais reflexivo acerca dos limites da democracia liberal e da regra majoritária, particularmente quando esta se estabelece sob as condições de maiúscula abstenção e quando estão em jogo decisões de semelhante transcendência, como as que concernem à possibilidade histórica do bem viver e em paz para as novas gerações.
Recordamos, nesse contexto, nossas visões de democracia discutidas na Mesa, que apenas alcançaram a ser recolhidas de maneira muito parcial no acordo sobre “abertura democrática”. E reforçamos nossas certezas da necessidade de lutar por novos entendimentos, projetos e procedimentos democráticos que transcendam o simples sufrágio, a fim de garantir uma verdadeira participação social e cidadã nos assuntos que incidem sobre a vida nacional.
Ainda em condições dessa precariedade democrática, na medida em que acessamos ao procedimento de referenda plebiscitária na busca da paz desejada, entendemos que, apesar da frágil maioria, tínhamos o compromisso político de aceitar o resultado desfavorável e de atender as múltiplas vozes que o haviam propiciado, distinguindo entre aquelas que manifestavam preocupações sinceras por um novo e melhor acordo e outras que tinham a pretensão de se erigir em obstáculo para a consecução do propósito superior, ainda que, dada a conjuntura, se acobertaram também com o manto e o discurso da paz.
Compreendemos melhor, então, o sentido do pluralismo e da diversidade, dos interesses particulares e de grupos e setores específicos do conglomerado social, que –em meio à conflagração que é inerente à ordem vigente- merecem respeito e reconhecimento. O mesmo que reivindicamos para nós.
Assim é que, em atenção a isso, nos demos à tarefa, junto com o Governo Nacional, de reabrir a discussão na Mesa de Havana, para considerar –com o rigor exigido pelas circunstâncias- todas e cada uma das propostas de precisão e ajuste do acordo subscrito a 26 de setembro, sob o entendido de que se tratava de um aperfeiçoamento do já combinado, tendo em conta o manifestado por todos os setores políticos e sociais que participaram num plebiscito cujos resultados não deviam ser compreendidos como uma negativa ao acordo mas sim como um chamado a seu melhoramento.
Ainda que a X Conferência Nacional Guerrilheira referendou o texto de um acordo que para nós já estava fechado, compreendemos a importância de reformulá-lo com um maior consenso que incorporasse muitas vozes que estiveram ausentes durante o processo de conversações e que, inclusive tendo dito Não, têm seu sentimento do lado da reconciliação.
Somos conscientes de que a possibilidade real de expandir a potência transformadora dos acordos descansa sobre sua legitimidade política e social. Por tal razão, nos produz uma imensa satisfação anunciar que, ao tempo em que o novo Acordo alcançado preserva a estrutura e o espírito do primeiro acordo pactuado, incorpora um sem-número de ajustes e precisões, que recolhe observações e novas propostas de redação, que formula aclarações e dirime dúvidas onde se considerou necessário. Por exemplo, em matéria de Jurisdição Especial para a Paz foram incorporadas nada menos de 65% das propostas provenientes dos diversos setores que votaram NÃO no plebiscito; quase 90% das iniciativas referentes ao polêmico tema de gênero; e algo mais de 100 variações que tocam nos temas concernentes à Reforma Rural Integral, Participação Política, Nova política antidrogas, Vítimas, Fim do conflito e implementação e verificação.
A propósito, de nossa parte cedemos, inclusive estendendo fronteiras que nos havíamos traçado, deslocando-as até os limites do razoável e aceitável para uma organização político-militar cujas armas não foram vencidas; que acorreu, portanto, à mesa de diálogos para uma negociação e não a um processo de submissão; e que tomou a decisão de participar na vida política legal, se se cumpre um conjunto de condições que o façam possível.
Dissemos à sociedade colombiana que realizamos nosso melhor esforço por responder aos anseios de paz, e podemos afirmar com a cabeça erguida que cumprimos e que ao novo acordo o único caminho que o espera é sua implementação, tendo em conta que com ele ficam assentadas as bases para começar uma tarefa ainda mais difícil e complexa: a construção de uma paz estável e duradoura, à qual esperamos possam se somar, com novos aportes, fruto de sua negociação, os companheiros do Exército de Libertação Nacional, e que toda a institucionalidade do Estado, o poder Executivo, o Congresso da República, as altas Cortes, a Promotoria General da Nação, as Forças Militares e de Polícia assumam seu respaldo.
Com o novo Acordo Final se geram condições para iniciar o difícil processo da reconciliação nacional, propósito que compromete as diferentes classes sociais, ao empresariado nacional, aos setores médios da população, a classe trabalhadora urbana e rural, aos intelectuais e artistas, aos trabalhadores da cultura, as comunidades campesinas, indígenas e afrodescendentes, a comunidade LGBTI, as mulheres e homens humildes, e desde logo a nossos guerrilheiros, que com expectativa estiveram em paciente a disciplinada espera; e também a todos os partidos e movimentos políticos e sociais.
A firma deste novo acordo deve dar início à construção do país da concórdia que levamos no coração e com o qual sonhamos durante toda a vida. Porém o mero acordo não é suficiente, porque um papel florescido de promessas e boas intenções, sem vedoria cidadã, facilmente pode ser arrastado pelo vento da indolência para o deserto do nada e da frustração da esperança. Reiteramos: o principal garantidor do cumprimento e da implementação dos acordos, ademais do componente internacional, é o próprio povo e suas organizações, porque ninguém melhor que ele pode sentir a urgência de sua concretização, porque toca com sua dignidade e seu direito a viver em paz.
Está triunfando a paz, não duvidamos. Nos sentimos orgulhosos de que a Colômbia continua sendo referência mundial de paz.
Reiteramos o chamado que fizéramos com o Governo a combinar com todas as forças vivas do país “um grande ACORDO POLÍTICO NACIONAL encaminhado a definir as reformas e os ajustes institucionais necessários para atender aos desafios que a paz demande, pondo em marcha um novo marco de convivência política e social”.
É tempo de paz; de desdobramento de uma contenda política que admita, sem o exercício estrutural da violência e do recurso das armas, a existência de diversas visões de sociedade e na qual se possa lutar por elas pela via democrática. Que a contenda se translade ao campo das ideias empunhando no mais alto das consciências a bandeira da verdade e da honradez.
Que ninguém obstaculize os sonhos e as esperanças de milhões de almas. Façamos da paz uma condição estável e duradoura sobre a base do respeito aos direitos do povo e à justiça social. Nosso futuro está fortemente ligado ao direito à terra, à saúde, à educação, à vida digna, para que ninguém em Colômbia recaia na desesperança. Chegou o momento da construção de sonhos e de dar vida à esperança mediante a luta política, preenchendo nossos corações do mais imenso amor pela pátria.
Com a voz do tribuno do povo Jorge Eliécer Gaitán, digamos uma vez mais: “Bem-aventurados os que entendem que as palavras de concórdia e de paz não devem servir para ocultar sentimentos de rancor e extermínio...”
Que renasçam, então, da luz deste Acordo de Paz, as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia para que invadam com seu amor e reconciliação todos os rincões deste grande Macondo que é Colômbia.
Amamos a paz, amamos a Colômbia. Que Deus e o comandante Manuel Marulanda Vélez abençoem este acordo.
Muito obrigado.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
Habana 12.11.2016


Comunicado Conjunto


O Governo Nacional e as FARC-EP informamos à opinião pública o seguinte:

La Habana, Cuba, 14 de novembro de 2016

O Governo Nacional e as FARC-EP, atendendo ao clamor dos colombianos e das colombianas por concretizar seu anseio de paz e reconciliação, alcançamos um novo Acordo Final para a terminação do Conflito Armado, que integra mudanças, precisões e aportes dos mais diversos setores da sociedade e que revisamos um a um.

A construção de uma paz estável e duradoura, objetivo ao qual responde este novo Acordo, deve ser o compromisso comum de todos os colombianos que contribua para superar a polarização e que recolha todas as expressões políticas e sociais. 

Convidamos a toda Colômbia e à comunidade internacional, sempre solidária na busca da reconciliação, a acompanhar e respaldar este novo Acordo, e sua imediata implementação para deixar no passado a tragédia da guerra. A Paz não dá mais espera. 

Ao finalizar o dia, os colombianos poderão consultar na página www.mesadeconversaciones.com.co um documento em que se assinalam as modificações e os novos elementos. 

A integração total dos textos do novo Acordo Final para a Terminação do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura ficará disponível nos próximos dias.

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