sábado, 9 de novembro de 2013

Inspirados por Alfonso Cano, crescem nossas esperanças de paz

Por: ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC- EP “Persistiremos em nossos esforços para alcançar a paz democrática pelas vias civilizadas do diálogo tal como temos feito há 44 anos, porque essa é nossa concepção revolucionária, porque assim são os nossos princípios”. Comandante Alfonso Cano. Dois anos atrás, no dia 4 de novembro de 2011, em meio ao ar rarefeito e fosco pelas explosões de bombas, metralhadoras e do opressivo cheiro de pólvora em abundância, sem se apresentarem para o combate, arrancaram violentamente da comunidade da resistência latino-americana o comandante Alfonso Cano, o irmão maior, o comandante geral da confraternidade revolucionária fariana. Todas as emoções apontam nesta data para o conjunto da militância guerrilheira, miliciana, do partido e na imensa massa de simpatizantes que acompanha nosso sonho pela paz. Imensa é a ausência de quem não está hoje presente, ajudando a modelar certezas. Mas também é imensa em toda a coletividade fariana, a responsabilidade de tornar realidade seu legado de justiça social, de amor pelos pobres e desamparados, e de combate contra a desigualdade e os privilégios dos opressores. Formidável é nossa convicção de manter firme o timão sobre o rumo da paz, para que esta possa colocar-se plenamente nas casas de todos os colombianos, como ele corroborou até o último alento. Para falar de Alfonso Cano, esse excelso comandante guerrilheiro do altiplano colombiano, temos que retrair as lutas históricas de todos os oprimidos na construção de modelos de governos liberadores e independentes; tecer os fios das lutas sociais, juvenis, estudantis, obreiras e camponesas; recordar a dor e a raiva dos encarcerados e perseguidos; colocar-nos no cenário da lutas das mulheres, indígenas e negros. Temos que nos encher de utopias, de literatura, de cinema, de arte, de história, de equilíbrio ambientalístico, de sacrifícios pela coletividade, de muito amor pelos seres humanos. Porque sua vida e suas emoções, desde muito jovem, estiveram aferradas aos desejos dos pobres para melhorar suas condições de existência, consagradas a investigar e multiplicar a palavra e ação dos subjugados da nossa América e do planeta, a espalhar resistências, nutrindo o pensamento crítico e emancipador da humanidade, articulando a sólida argumentação teórica e prática que requer a nação para apropriar-se de seu destino e enterrar a opressão. Para os capitalistas e seus porta-vozes jurídicos e midiáticos, que reclamam dia-a-dia obsequência perante o insaciável modelo de exploração, Alfonso, esse fogo atronador da rebeldia continental, foi um mal exemplo. Ele perturbava a tranquilidade de seus privilégios. Por isso toda a força do terror midiático e militar dos opressores nacionais e transnacionais caiu sobre sua humanidade para assassiná-lo. E depois de matá-lo, vomitaram infâmias sobre seu corpo inerte. Perdemos um magnífico líder, mas com ele crescemos e seguimos crescendo, ampliando e estreitando laços com as imensas massas de colombianos que lutam por uma paz justa e verdadeira, por melhores condições de vida, por melhores salários. Que se mobilizam contra as máfias enriquecidas a custa da deterioração da saúde dos colombianos e suas necessidades de moradia; que se manifestam multitudinários pelo direito à educação, pelo direito à terra para os trabalhadores rurais que nela trabalham. Contra a judicialização e criminalização do protesto social; contra a privatização da educação, dos serviços públicos e da entrega do território e dos recursos naturais a corporações multinacionais, a monopólios nacionais e a latifundiários colombianos. O povo da Colômbia, em toda a amplitude de sua geografia humana, avança mobilizado contra a injustiça econômica e social que implementa o governo neoliberal de Juan Manuel Santos. Além da fascistização de todos os espaços da sociedade, também a insurgência se aferra ao terreno da ação política e militar, confirmando uma vez mais, com sua força e presença ativa na mesa de conversações em Havana, que a paz é a única fórmula verdadeira para resolver um conflito que vai cumprir meio século no próximo ano. A paz que se constrói desde Havana tem contado com o apoio nacional, um crescente número de iniciativas acompanha o clamor pela concretização de acordos que afiancem a reconciliação. Todas estas iniciativas foram apresentadas integrando nossa visão de paz, porque ela vem do povo e de seus anseios. Por isso saudamos as propostas apresentadas pelo Doutor Álvaro Leyva Duran e pela Doutora Clara López na representação do Polo Democrático, porque tudo o que aporta para avançar até a paz e contra a guerra, é substancial para o logro da reconciliação. Oxalá o governo tenha a capacidade de interpretá-lo com sentimento pátrio e não meramente visando a reeleição. E para aqueles que se esforçam pela manutenção e aprofundamento da guerra graças a qual prosperam, os que exigem maior impunidade para proteger as atrocidades cometidas por militares e policiais e que se protegem na inconstitucionalidade da reforma no fórum militar, os convidamos a prestar atenção aos milhões de colombianos que se manifestam cotidianamente para que a barbárie termine, prestem atenção no sentimento dos seus oficiais de baixa patente, suboficiais e soldados, que nas zonas de operação expressam o cansaço pela guerra e suas atrocidades, e evitam o combate esperançosos por um cessar total da guerra. E aos que, desde suas posições transitórias de poder ministerial, uivam ameaças de aniquilamento da guerrilha, e anunciam novos contingentes de soldados para a guerra; e os que não creem que chegamos a Havana “porque é nossa concepção revolucionária, porque assim são os nossos princípios” como afirmou Alfonso, senão porque estávamos derrotados, lhes recordamos as palavras destes, em carta ao general Valencia Tovar: “Sustentar qualquer proposta na imagem que vende a propaganda oficial de uma FARC derrotada, repleta de impúberes, sem apoio das massas, sem comunicações, etc, não é sério. O General Valencia deve recordar como a mentirosa campanha midiática do governo dos Estados Unidos na ocasião de sua agressão ao Vietnã, finalmente estourou na própria cara”. Com a memória do comandante Alfonso Cano nos enchemos de esperanças pela paz, assim como os colombianos que padecem as injustiças do regime. Nestes dois anos de ausência ele nos inspirou com sua clara mensagem: “os caminhos que conduzem ao incremento da luta popular em suas mais variadas formas e a conquista do poder, nunca foram fáceis, nem em nosso país nem em nenhuma outra parte do mundo, nem agora, nem antes. Só a profunda convicção na vitória, na justeza, validez e vigência de nossos princípios e objetivos e um monolítico esforço coletivo, garantirão o triunfo. Aos reacionários que fazem alegres contas contra as FARC, lhes informamos que a intensidade da confrontação nos fortaleceu, estreitando vínculos com as comunidades, suas organizações e as lutas populares, elevando a disciplina e o respeito pela população civil, e incrementando nossa qualificação e aprendizagem. Morreram guerrilheiros porque assim é a luta, mas também seu generosa sangue derramado é evidência de nosso total compromisso com o povo. Outros camaradas já cobriram a trincheira dos caídos e muitos mais continuam chegando as nossas filas. Assim foi também a gestação da nossa independência, e todos os processos libertadores da humanidade, onde se desataram os demônios da guerra… Somos uma força revolucionária com a suficiente história, solidez e consistência para superar o falecimento de nosso Comandante em chefe, porque ele mesmo nos instrumentou e contribuiu no esforço coletivo de consolidação política e militar. O Secretariado, o Estado Maior Central, os Estados Maiores dos blocos e frentes, os comandos de todo nível, os dirigentes e combatentes das FARC-EP garantiremos o triunfo”. O legado do comandante Alfonso Cano sempre será alento para encontrar o fio condutor do país até as transformações que este reclama. Seu exemplo na análise de cada conjuntura, sua convicção a toda prova, mirando sempre o horizonte estratégico, e seu desprezo pela ortodoxia, nos obrigam a refletir sobre o método, de como poder mobilizar o compromisso das pessoas por mudanças necessárias neste modelo apodrecido em que agoniza a humanidade. Memória eterna ao heroico comandante. ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP Montanhas da Colômbia, 4 de novembro de 2013 Fonte: http://farc-ep.co/?p=2645

domingo, 3 de novembro de 2013

SAUDAÇÃO DA DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP À CÚPULA NACIONAL DE MULHERES E PAZ.

SAUDAÇÃO DA DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP À CÚPULA NACIONAL DE MULHERES E PAZ. LA HABANA, CUBA, SEDE DOS DÍALOGOS DE PAZ, 23 DE OUTUBRO DE 2013 CÚPULA NACIONAL DE MULHERES E PAZ. 23-25 de outubro. Bogotá-Colômbia. A Delegação de Paz das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Exército do Povo, saúda com sentimento de pátria e de paz as organizações, participantes e assistentes que se congregam na Cúpula Nacional de Mulheres e Paz, para compartilhar experiências locais, nacionais e internacionais que contribuam na construção da paz a partir da formulação de propostas concretas. Quiséramos iniciar expressando nosso pleno contentamento pela realização desse evento, que toma como marco referencial de desenvolvimento o ponto sexto da Agenda do Acordo Geral de Havana. Não obstante, cremos pertinente que saibam que é nosso maior desejo que a participação de tod@s vocês, do conjunto da sociedade, e em especial da mulher no processo de Diálogo se dê não delimitando a presença num ou noutro ponto em específico, senão que seu desenvolvimento, seu protagonismo, seja parte de todo o conjunto do desenvolvimento das conversações; isto é, que consideramos desde as FARC-EP que o papel das comunidades e de suas organizações e movimentos sociais e políticos deve ser o de construtores do Acordo de Paz e não somente o de atores do epílogo da mencionada Agenda. Ao nosso modo de ver, se a paz é um assunto de todos e todas sem exceção, é apenas justo e natural que o conjunto das comunidades e organizações ou movimentos sociais se manifestem na construção do Acordo em toda sua extensão, que se discute em HAVANA e está composto pelo preâmbulo e 6 pontos. Assim as coisas, nosso primeiro chamado seria a exigir desde este cenário que se abram as comportas da discussão de todos os pontos da Agenda, de frente para o país e o mundo, tal como o temos proposto como insurgência desde os inícios das aproximações com o governo. De nossa parte, temos feito um grande esforço para que as vozes do povo cheguem até a Mesa de conversações, incluindo-as em nossas propostas mínimas; temos ressaltado em cada uma delas a necessidade de colocar em primeiro plano as reivindicações e direitos dos setores sociais mais excluídos, especialmente o das mulheres. Assim ocorreu durante as discussões do primeiro ponto referido à problemática agrária e assim ocorre agora em desenvolvimento do segundo ponto referido à participação política. O mesmo compromisso com tais reivindicações temos para o desenvolvimento dos pontos que seguem, e no dia a dia de seu desenvolvimento incluímos sentidas iniciativas que guardam objetivos de muito peso ético e de humanidade como o de pôr como tema central de discussão a luta contra a guerra em geral. Uma sociedade deve viver em paz e essa paz deve ter como base de sua existência a justiça em condições de igualdade e liberdade; isto é, contando com terra para trabalhar, com moradia, com agasalho, com saúde, com educação, com plena participação política em condições de dignidade e liberdade. Não podemos cair na armadilha de deixar-nos enredar por concepções que, montando-se às vezes em erros ou faltas que se cometem no desenvolvimento de tão longa confrontação, argumentando uma suposta defesa dos direitos da mulher, se usa como instrumento para estigmatizar e desqualificar a existência da insurgência. Muitas vezes, por exemplo, para definir as formas mais generalizadas de violência contra as mulheres, no contexto do conflito armado, se tomam categorias que se definem com redação incriminatória absoluta na inclusão das guerrilhas como sujeito delinquente; induzindo a pensar em que se trata de uma prática própria de nossa concepção revolucionária assumir que as mulheres podem ser objetos usáveis, prescindíveis, maltratáveis e descartáveis. Estas generalizações mal-intencionadas não são construções casuais, mas sim de propaganda dirigida à desqualificação da luta armada como método legítimo dos pobres para resistir e lutar por seus direitos. Obviamente, para nada consideram que precisamente os homens e mulheres insurgentes na Colômbia levantamos a bandeira do rechaço contra todas estas patologias geradas pela guerra que nos impõem as oligarquias e que, precisamente na guerrilha, de maneira voluntária, a mulher assume um lugar digno de combate para libertar a sociedade toda da privação ou da restrição de seus direitos. A violência contra a mulher faz parte da violência estrutural que, geralmente, as classes exploradoras exercem contra o conjunto da sociedade; em tal sentido, reivindicar os direitos da mulher no ideário fariano implica descartar toda visão reducionista do sentido da paz, assumindo-a como a ausência da guerra ou como o resultado da deixação das armas, o qual se lhe costuma exigir à insurgência, sem levar em conta as causas que levaram ao alçamento que hoje protagonizam homens e mulheres desde a guerrilha em função de, antes de tudo, forjar as bases da justiça social, incluindo nisso a reivindicação dos direitos da mulher. Reiteramos, então, que a paz implica uma luta de todos e todas por erradicar as causas sociais e política que geraram a confrontação; implica acabar com as causas da pobreza e da desigualdade; implica a desmilitarização da sociedade e do Estado, de tal maneira que se abra caminho ao exercício pleno de uma verdadeira democracia. Urge que o processo de paz em Havana abra as portas da participação ao conjunto da sociedade, e em especial à mulher desde já, em todos os pontos, sem ter que esperar até o ponto seis para fazê-lo. DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

As FARC entregam o militar estadunidense Kevin Scott Sutay à Cruz Vermelha Internacional e aos países facilitadores de Paz, Noruega y Cuba

As FARC entregam o militar estadunidense Kevin Scott Sutay à Cruz Vermelha Internacional e aos países facilitadores de Paz, Noruega y Cuba Delegação de paz das FARC-EP informa: 1. Que o veterano de guerra estadunidense KEVIN SCOTT foi libertado unilateralmente pelas FARC num lugar do rio Inírida, nas selvas do Guaviare, Colômbia. O cidadão norte-americano foi entregue, na manhã de 27 de outubro, a uma missão humanitária integrada pelo CICV, pelos países garantidores na mesa dos diálogos de paz, Noruega e Cuba, e um representante do governo colombiano. 2. O gesto de paz da organização insurgente havia sido postergado pela intransigência do governo de Juan Manuel Santos ao não permitir, durante meses, a intermediação humanitária, primeiro, da ex-senadora Piedad Córdoba e, em seguida, do Reverendo Jesse Jackson. Sem dúvida, na concretização desta libertação, jogou papel decisivo a determinação do Departamento de Estado dos Estados Unidos. 3. Agradecemos ao CICV, aos governos de Cuba e da Noruega, seus bons ofícios para que Kevin Scott pudesse reencontrar-se com os seus em seu próprio país. Noruega e Cuba atuaram com a mesma eficácia e discrição que os distingue como garantidores nos diálogos de paz que se realizam em Havana entre o governo da Colômbia e as FARC-EP. Nosso reconhecimento também a Piedad Córdoba e a Jesse Jackson. 4. Aspiramos que esta decisão unilateral das FARC, que não exigiu nada emtroca, exerça influxos positivos no avanço dos acordos de paz. DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

A luta mundial contra a Monsanto cresce e cresce

A luta mundial contra a Monsanto cresce e cresce Tradução: Joaquim Lisboa Neto Nas vésperas da celebração do Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro passado, em mais de 500 cidades de 52 países se realizaram manifestações contra a Monsanto, a tenebrosa transnacional da biotecnologia e dos alimentos geneticamente modificados. Os milhares e milhares de manifestantes pediram ao mundo boicotar a ação “depredadora” da Monsanto porque introduziu diferentes tipos de transgênicos no mercado globalizado, que, segundo expertos, são prejudiciais para a saúde humana, representando uma ameaça para “a saúde, a fertilidade e a longevidade”. Na realidade, a Monsanto não é a única corporação que aspira conquistar o monopólio do fornecimento de alimentos em nosso planeta. São várias corporações biotecnológicas e agroquímicas que formam o poderoso grupo CropLife America e, entre elas, se destacam: Monsanto, DuPont, Dow AgroSciences LLC, Syngenta, Bayer, Basf, Río Tinto, Mendel, Ceres, Evogene. Foi precisamente este grupo que mandou a carta de protesto à esposa do presidente Obama, Michelle Obama, quando ela plantou seu jardim orgânico livre de pesticidas e organismos geneticamente modificados [OGMs]. Agora, podem estar tranquilos, porque a crise econômica e a recente paralisação temporária do governo norte-americano fez murchar o jardim da senhora Obama. Neste conjunto, Monsanto, a multinacional de Biotecnologia Química e Agrícola com sede em Creve Coeur, Missouri, é a mais poderosa de todas em termos políticos, econômicos e financeiros. É a mais famosa por suas sementes transgênicas e herbicidas como Roundup Ready [RR], a base de glifosato para eliminação de ervas e arbustos. Atualmente, essa corporação, que começou como uma pequena companhia química em 1901, se transformou num gigante biotecnológico do século XXI, ganhando em 2012 13,5 bilhões de dólares. Está operando em 68 países do mundo, semeando sementes OGMs em mais de 114 milhões de hectares e, deles, 61 milhões nos Estados Unidos. Neste país, controla 40% das terras cultiváveis. Foi precisamente a Monsanto um dos produtores do Agente Laranja, que foi borrifado massivamente durante a guerra do Vietnã numa operação Ranch Hand entre 1961 e 1971. Segundo a Cruz Vermelha vietnamita, um milhão de pessoas ficaram mutiladas e mais de 500.000 crianças nasceram com defeitos pelo uso desse desfolhante. O Agente Laranja, que foi aplicado com o pretexto de proteger vidas dos soldados norte-americanos, fez seus estragos em seus próprios soldados, os quais, em 1984, fizeram uma demanda coletiva no Tribunal do Distrito Leste de Nova Iorque. Apesar de que o Tribunal não tenha encontrado culpados, se acordou que as sete companhias produtoras do Agente Laranja [Monsanto, Diamond Shamrock Corporation, Dow Chemical Company, Hercules Inc., TH Agricultural y Nutrition Company, Thompson Chemical Corporation y Uniroyal Inc.] pagarão 180 milhões de dólares aos veteranos estadunidenses da guerra no Vietnã e a seus familiares. Se calcula que mais de 600.000 veteranos norte-americanos foram afetados por esse desfolhante e milhares de seus filhos nascerem com leucemia. Porém, tudo isto pertence à história e já ninguém quer recordar-se da tragédia daquela guerra. Até o Tribunal Supremo norte-americano declarou em 2004 que as companhias produtoras não eram responsáveis do uso do Agente Laranja. No entanto, a realidade que o mundo vive atualmente é muito mais sinistra comparando com o passado, pois estamos frente a um processo quando uma corporação multinacional [Monsanto] aspira apoderar-se da produção e distribuição de alimentos no mundo inteiro, usando sua tecnologia do OGM. De acordo com recente estudo da Food and Water Watch, 93% dos produtos da soja no mercado norte-americano e 80% dos de milho contêm OGMs produzidos pela Monsanto, que tem mais de 1.676 patentes de sementes. Atualmente, essa multinacional controla mais de 90 por cento do mercado mundial de sementes transgênicas, o que constitui um monopólio industrial sem precedentes, e 60 por cento do mercado global de sementes comerciais. O êxito da Monsanto não se deve somente a sua habilidade de criar produtos rentáveis, mas também a suas conexões políticas, midiáticas e a seu persistente trabalho de cooptação. Segundo o Center for Responsive Politics, a Monsanto gastou mais de 4 bilhões de dólares desde 1990 para as campanhas eleitorais, dando apoio aos políticos para promover seus interesses. A maioria de seus executivos, de acordo com a publicação Global Research, são ex-congressistas e altos ex-funcionários de diferentes departamentos do governo federal norte-americano. Tem à sua disposição incondicional os meios de comunicação que, dia a dia, estão tratando de convencer a opinião pública da vantagem do uso de produtos que contenham OGM. E, para dar solidez aos escribas a soldo, utiliza estudos favoráveis de seis universidades estadunidenses subvencionadas pela multinacional: Arizona State University, St. Louis University, University of Missouri, Cornell University, Washington University in St. Louis y South Dakota State University. Agora, os professores à sua disposição criaram um novo pretexto para a promoção das sementes OGM. Um recente informe do ETC Group como Monsanto, Bayer, BASF, DuPont, Syngenta, Dow, Mendel, Ceres e Evogene estão patenteando as sementes com genes que resistem ao estresse do meio ambiente [seca, variações extremas de temperatura etc]. Segundo a campanha publicitária desses gigantes bioquímicos, “somente esta tecnologia de OGM é capaz de neutralizar os efeitos do aquecimento global e da fome no futuro não tão distante”. Na realidade, é um novo pretexto para aumentar o poder corporativo sobre a alimentação, controlar os preços, terminar com a pesquisa independente e acabar com a tradição milenar dos agricultores de intercambiar as sementes. Agora, a Monsanto e a BASF estão investindo 1,5 bilhão de dólares para criar este tipo de sementes. Seu laboratório é a África, onde essas duas multinacionais se aliaram com a Fundação Bill e Melinda Gates para promover a suposta “Revolução Verde” no continente. O curioso é que o multimilionário Bill Gates, que é apresentado pela imprensa globalizada como um generoso filantropo, comprou 500.000 ações da Monsanto por 23 milhões de dólares. Os africanos deveriam estudar os “resultados” das “revoluções verdes” que a Fundação Rockfeller promoveu na América Latina nos anos 1960 e 1970. Porém, o processo já está em marcha com o consentimento e a participação dos governos de Quênia, Tanzânia, Uganda e África do Sul apoiado por 47 milhões de dólares doados pela Fundação de Bill Gates. A América Latina também tem estado na mira da Monsanto desde os anos 1990. O modelo de agroindústria com o uso das sementes OGMs se impôs em todos os países do Mercosul e também na Bolívia para a produção de soja, milho e algodão transgênicos. Atualmente, 50 por cento da terra cultivável na província de Buenos Aires estão semeados com sementes OGMs e regados com glifosato desde um teco-teco. No Paraguai, depois do golpe de Estado em 2012 contra o presidente legitimamente eleito Fernando Lugo, a Monsanto junto com a Cargil encontraram um paraíso para suas sementes transgênicas. Atualmente, estão construindo uma fábrica de sementes transgênicas, convertendo-se esse país no terceiro laboratório da Monsanto, depois de Argentina e Brasil. Atualmente, na Argentina, de acordo com o jornalista Federico Larsen, 97 por cento da soja produzida é transgênica e também o país liberou o uso do hormônio recombinante bobina BST Posilac, produzido pela Monsanto, que aumenta a produção leiteira nas vacas em 25 por cento, porém que está proibido na maioria dos países do mundo por demonstrar-se cientificamente que Posilac favorece o desenvolvimento do câncer de mama nas mulheres. No entanto, a própria presidenta Cristina Fernández declarou, há pouco, que “O investimento da Monsanto é importantíssimo e vai ajudar na concretização de nosso plano, tanto agroalimentar 2020 como nosso plano também industrial”. Parece que ninguém está prestando atenção aos estudos de vários especialistas que chegaram à conclusão de que, neste ritmo, as terras na Argentina e no Brasil deixariam de ser produtivas em aproximadamente 50 anos. Parece que às transnacionais ou a muitos governos de turno não lhes interessa o futuro. Por isso, firmam as leis, como a recente Lei de Proteção da Monsanto nos Estados Unidos, que protege a transnacional de todos os julgamentos relacionados à produção e venda de sementes OGMs, ou a Lei Monsanto no México, aprovada em 2005 pela maioria dos congressistas, sem nem sequer ser lida, dando luz verde à corporação biotecnológica em seu país. O mesmo caminho está tomando a Ucrânia, tendo as terras mais férteis da Europa. Felizmente, existem raras exceções, como a iniciativa do presidente do Peru, Ollanta Humala, que conseguiu que o congresso aprovasse em 2011 uma moratória de 10 anos ao cultivo e a importação de transgênicos no país, com a “finalidade de proteger a biodiversidade, a agricultura nacional e a saúde pública”. Também a multinacional Monsanto decidiu retirar as solicitações para o cultivo de novos transgênicos na União Europeia ante os protestos e resistência de vários governos e grupos ecológicos de usar essas sementes que impactam negativamente sobre a saúde. No entanto, as plantações de cultivos transgênicos continuam em Espanha, Portugal, República Checa e Polônia. Na Rússia, o presidente Putin deu um grito de alerta pelas intenções de Monsanto de instalar-se em seu país. Porém, terá que lutar contra os oligarcas russos, para os quais a pátria não é um lugar onde alguém nasce, mas sim onde se ganha dinheiro, igualmente contra as leis russas aprovadas na época de Yeltsin e que impedem a proibição dos produtos transgênicos. Há uns dez anos, a Monsanto tratou de ingressar em Cuba, porém eles anunciaram que seriam o laboratório mundial para os produtos orgânicos e não chegaram a nenhum acordo. Agora, a Rússia tem melhor oportunidade e as condições para converter-se no centro de cultivos orgânicos por não estar contaminada sua agricultura com as sementes OGM e por ter 40 milhões de hectares de terra não exposta durante muitos anos ao uso dos químicos. De acordo com os expertos, para 2020 a Rússia poderia abastecer o mercado mundial com 15 por cento dos produtos orgânicos, se é que os agricultores recebem o apoio do governo. As possibilidades de pôr freio às intenções das multinacionais biotecnológicas de estabelecer o controle corporativo sobre a alimentação existem. Só se necessita a vontade dos povos de despojarem-se do individualismo implantado pelo neoliberalismo, e retornar à premissa de Aristóteles, segundo a qual os humanos somos homens sociais e políticos e não podemos viver fora da sociedade. Porém, viver na sociedade necessariamente implica ações coletivas através das quais poderíamos impor-nos a qualquer transnacional, como o estão fazendo atualmente os habitantes de Malvinas Argentinas, a 14 quilômetros de Córdoba, Argentina, opondo a Assembleia de Vizinhos Luta pela Vida à Monsanto. Em 2012, as Mães de Ituzaingó, um bairro de Córdoba, ganharam pela primeira vez um julgamento contra a Monsanto. Isto demonstra que a união, a solidariedade e a vontade coletiva são armas poderosas do povo que luta por seu bem-estar e seus ideais. elclarin.cl tomado de www.resumenlatinoamericano.org

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O atual Modelo Energético Brasileiro

por Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do MAB O conceito de Modelo Energético tem significados diferentes para atores situados em polos antagônicos. Para nós, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), "modelo" significa a Política Energética necessária ao desenvolvimento das forças produtivas que sirva ao conjunto da nação, com respeito ao meio ambiente e à soberania nacional. No entanto, para os setores que controlam a energia no Brasil, Modelo Energético refere-se às fontes/matrizes de produção da energia, porque esses setores já têm clara a finalidade da energia: responder à demanda do mercado, à voracidade das grandes corporações que controlam a indústria de eletricidade, à indústria eletrointensiva e no aumento da produtividade a qualquer preço. É inegável que a energia é a locomotiva do desenvolvimento das forças produtivas e que o resto é vagão. Sua importância estratégica está relacionada à produção de valor na sociedade capitalista. Na sociedade atual, a energia é central para reprodução do capital, pois é utilizada como forma de acelerar a produtividade do trabalho dos trabalhadores. Há concordância que a energia é necessária na geração da riqueza, que a cadeia produtiva de energia cria empregos e que a energia possibilita o bem estar das pessoas. Também é evidente que a produção de energia pressupõe fontes para a sua geração e que hoje, nas atuais condições de produção, a hidro tem sido a tecnologia “mais eficiente” quando comparada com as demais fontes de produção de eletricidade. Ao ressaltar esses argumentos, no entanto, aqueles que controlam o setor omitem para quê e para quem ele é planejado. O atual modelo energético, de padrão e herança autoritária, tecnocrática e neoliberal está a serviço das corporações transnacionais e seu modelo de desenvolvimento. O bem público serve aos interesses de uma minoria, com predomínio do setor financeiro e seus mecanismos. Esse modelo afeta enormemente as populações, na cidade e no campo, além de precarizar o trabalho no setor (terceirização), utilizar os trabalhadores das obras na condição de semiescravidão, repassar toda conta às residências e produzir impactos socioambientais no nível local, regional e até internacional. A energia é vista como mercadoria e não como bem público. Assim se produzem graves injustiças. Essa lógica, que persiste na geração, transmissão e distribuição da energia, não se preocupa com a sustentabilidade social e ambiental, apenas com o "progresso" econômico medido pelo rendimento final e fantasiado na renda per capita que esconde quem se apropria da riqueza. Mais: a atual política energética, em nome do desenvolvimento, avança sobre um patrimônio que pertence também às futuras gerações, pois exportar nossos recursos a países ricos é eticamente um assalto às novas gerações. Atualmente, quem controla a energia é o capital internacional especulativo, são transnacionais que controlam o setor elétrico nacional e se apropriam dos resultados. Corporações mundiais como a Suez Tractebel, AES, Odebrecht, Queiroz Galvão, Iberdrola, Vale, Alcoa, Billiton, Alstom, Siemens, etc. Este controle veio a partir das privatizações dos anos 90 e segue nos dias atuais. Atualmente, até mesmo as estatais estão nas mãos do capital privado: 60% da Eletrobrás; 80% da CEMIG; 65% da Cesp. As estruturas de Estado estão capturadas pelas empresas privadas. As agências reguladoras, Ministério de Minas e Energia, Empresa de planejamento e até as estatais estão à serviço dos empresários. Foram criadas várias leis e estruturas de Estado que tentam despolitizar o debate da energia, como se fossem questões “técnicas e neutras”. A ANEEL, agência reguladora de finalidade e comportamento questionáveis, é parte de uma estratégia e instrumento para servir aos empresários. É o centro onde se legaliza o modelo. O BNDES é o principal financiador das usinas, repassando dinheiro público para as transnacionais, enquanto que estatais são proibidas de ter a maioria das ações nas usinas. Dessa forma, as estruturas de Estado se comportam contra os interesses sociais. A mercantilização da energia, através do modelo privado, transformou a energia no principal negócio dos setores privados. Foi implementado um sistema de tarifas que simula uma falsa concorrência. As tarifas foram internacionalizadas, os preços da eletricidade brasileira passaram a ser vinculados ao custo da energia térmica. Nossas tarifas foram elevadas a patamares internacionais, longe da realidade dos custos de produção de nosso país. Atualmente a energia no Brasil é 25% mais cara que na França, onde 76% da matriz é nuclear, ou seja, com custo de produção muito mais alto. A venda da energia elétrica se transformou no principal negócio deste setor, porque agora o lucro dos empresários que controlam a energia não vem só da exploração dos eletricitários, mas de 60 milhões de residenciais. As residências pagam a conta. Enquanto isso, os grandes consumidores (livres) recebem energia barata, para produzir eletrointensivos e exportar, sem pagar imposto algum, porque são isentos pela lei Kandir. Para mudar o modelo, é necessário mudar o sistema de tarifas. Os trabalhadores do setor são altamente produtivos e explorados. Para se ter uma ideia, os trabalhadores da AES Tietê produziram em 2012, cerca de R$ 2,3 milhões de lucro/trabalhador. Está em curso uma intensificação da exploração sobre os eletricitários. As empresas privadas e estatais estão buscando rebaixar os ganhos dos trabalhadores aos patamares mais baixos mundialmente. Está ocorrendo um intenso processo de reestruturação do trabalho para aumentar a produtividade, através de demissões, terceirizações, precarizações e aumento de jornada, além da incorporação de novas tecnologias que aceleram a obsolescência programada. Isso reflete diretamente na qualidade dos serviços de energia. A riqueza extraordinária gerada na energia, nas diferentes áreas, não tem sido revertida em benefício prioritário ao povo brasileiro. O que constatamos são remessas cada vez maiores de lucro aos acionistas, enquanto o serviço púbico e a situação dos trabalhadores se deteriora cada vez mais. Os lucros são extraordinários e tudo é enviado através de remessas de dividendos (100%). A AES Tietê tem lucro médio de 43,5%. Cinco empresas (AES Eletropaulo e Tietê, Suez Tractebel, Cemig e CPFL) tiveram, nos últimos 7 anos, lucro total de R$ 45,7 bi e remeteram R$ 40,7 bi a seus acionistas. Os rios são o território mais desejado e disputado pelas transnacionais que controlam a indústria de eletricidade. Como a energia hídrica é a tecnologia mais rentável comparada às demais fontes, aumenta a disputa mundial para controlar os melhores locais e extrair os excedentes. Nosso território é foco de disputa internacional do capital, pois concentra as principais reservas estratégicas de “base elevada de produtividade natural”. O Brasil possui as maiores e melhores reservas de rios e água para geração de eletricidade, 260 mil MW de potência, dos quais só 30% foram utilizados até agora. A América Latina tem potencial de 730 mil MW. Entendemos que o problema central na energia é a política energética. O modelo energético. Não queremos discutir somente a matriz, apesar de sua importância. Atuar na política energética pressupõe incidir decisivamente no planejamento, na organização e controle da produção e distribuição da energia, da riqueza gerada e no controle sobre as reservas estratégicas de energia de base de elevada produtividade natural. O Lema do Encontro Nacional do MAB, “Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular”, representa a síntese do projeto que defendemos para a energia. http://www.mabnacional.org.br/noticia/atual-modelo-energ-tico-brasileiro

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A sólida perseverança das FARC-EP

A ideologia das classes dominantes nunca bradou com tanta soberba como após a queda da União Soviética. Lança em riste, políticos, acadêmicos, intelectuais, militares e até comunistas arrependidos se bateram contra o pensamento revolucionário, alegando que carecia de lugar, pretendendo ridicularizar seus defensores e celebrando missas por sua morte intempestiva. Absurdas elaborações sem a menor sustentação histórica ou científica passaram a ser publicadas, o que chamaram com desprezo de fim da história, choque das civilizações, onda democratizadora e sucessivamente emergiram novíssimas interpretações da realidade, abençoadas imediatamente pelo grande capital e universalizadas com loas pelos grandes meios de comunicação. Pior ainda foi a avalanche desatada contra os revolucionários em armas. No tempo em que os marines norte-americanos armados com o arsenal mais moderno, amparados por sofisticada artilharia, naves de guerra e aviões de alta tecnologia destrutiva, humilhavam o Exército iraquiano na operação Tormenta do Deserto, diziam que nada justificava mais agora as rebeliões armadas. Sem importar o lugar, as condições históricas, nem a natureza das contradições econômicas, sociais, políticas ou culturais que particularizavam a situação das distintas lutas dos oprimidos, um decreto expedido nas alturas imperiais, e aplicado de imediato por seus capangas em cada país, sentenciava que só tinham algum sentido os meios pacíficos. Mesmo que em muitas partes existam as condições plenas para o exercício de tal expressão da luta popular. E partiram da premissa de que todas as manifestações, armadas e não armadas, de inconformidade e rebeldia, haviam tido origem exclusivamente no interesse soviético por ampliar seu domínio no mundo. Morta a mãe, havia que sacrificar os filhos. Se todas as formas da luta contra a exploração capitalista eram estimuladas pelo comunismo russo, se as pressupostas injustiças e opressões contra as que se alçavam os povos não eram mais do que invenções da propaganda subversiva promovida por Moscou, se o capitalismo era o escalão mais alto e insuperável alcançado pela humanidade, não havia mais remédio do que a rendição. Entre outras coisas, porque com a derrubada do paradigma se pretendia provar a impossibilidade de uma alternativa distinta. Todos os meios e discursos repetiram incessantemente que a salvação buscada não existia, como acabava de ser demonstrado, mas sobretudo porque tão pouco o perigo havia existido. O capitalismo nunca havia sido um monstro, mas uma benção divina. Canalhas, miseráveis, dinossauros depreciáveis e estúpidos, múmias congeladas no tempo, peças descartáveis de museu, cegos sem cajados e surdos sem remédio, tudo isso foi dito dos que perseveramos na luta contra as injustiças. A fúria reunida de todos os furacões era pequena perante o temível tsunami que caiu sobre os revolucionários e rebeldes. Muitos cederam, é verdade. Beberam da nova fonte da sabedoria e ficaram perplexos, intimidados pelo descomunal gigantismo do poder único. Resignaram suas ideias e seus esforços por transformar o todo e construir sua verdade. Não merecem uma palavra mais que se refira a eles. Nós não, nós seguimos apostando na causa e seguros do triunfo. Desde então todas as iras imperiais e oligárquicas caíram sobre nossas cabeças; não houve infâmia que não se atribuísse a nossa organização. Perseverar na luta se converteu em estigma, operações exemplares se ergueram para executar-nos com sevícia, os círculos do poder celebraram em uníssono uma e outra vez cada golpe que recebíamos: converteram-nos em malditos. Ainda assim seguimos adiante. Inspirados entre outras coisas pela dignidade do povo de Cuba, essa nação de titãs que iluminados pelas palavras de Fidel e Che, levanta invencível nas barbas do Império. Animados pela claridade diáfana do pensamento de nossos fundadores, reivindicando o sangue e a honra daqueles que tombaram lutando. Mas sobretudo conscientes de que, não porque a repetiram milhões de vezes, a mentira institucionalizada ia a converte-se em verdade absoluta. Enquanto a fome e a injustiça afetaram uma imensa maioria de nossos compatriotas, enquanto a violência sanguinária do Estado continuara cerceando milhares de vidas em nosso solo, nossas razões se mantinham vivas. Não porque conseguiram impor-se pela força das armas e o medo, se tornaram válidos os argumentos do grande capital para saquear sem trégua as riquezas do nosso país, para cortar de uma vez os direitos conquistados pelos trabalhadores em um século de lutas, para redistribuir a propriedade da terra a seu favor mediante a geração de massacre e o desterro. Não porque nos chamaram da pior maneira, porque asseguraram que carecíamos de ideias e só nos alentavam as motivações vis, porque seus cantos de sereia nos convidaram à rendição ao mesmo tempo em que nos despejavam toneladas de explosivos, nós, as FARC-EP, íamos deixar de alentar nosso povo à luta e jogar a decência no lado do caminho. Somos revolucionários, cremos na possibilidade de que o povo colombiano arrebente as correntes com que ataram sua soberania nacional, apostamos sem duvidar que, ao abrirem-se os espaços para a expressão livre do pensamento e o exercício da atividade política, sem risco para a vida e para a liberdade, as pessoas honradas do nosso país, essa grande maioria, alcançaremos as mudanças necessários. Sempre soubemos que não é mediante a força solitária das armas que vamos conseguir o poder para nosso povo. Porém, sabemos que nas condições violentas e desvantajosas em que a oposição política é obrigada a atuar em nosso país, apenas as vias pacíficas resultarão insuficientes. A história da União Patriótica demonstra isso. Na particular situação em que o povo da Colômbia é obrigado a viver, o emprego revolucionário das armas tem sido necessário para sustentar a resistência e manter acesa a possibilidade de abrir o caminho para uma verdadeira democracia. Há sido a oligarquia do nosso país, servil ao imperialismo, a que sempre promoveu a guerra. Nós apenas lhe fazemos frente. Que tudo isso mude é nossa aspiração ao dialogar com o governo em Havana. Para alcançar essa Mesa tivemos que suportar a mais demente arremetida que já sofreu algum povo em toda a história do nosso continente. Durante 49 anos contínuos, milhares de mulheres e homens temos entregado o melhor das nossas vidas sem receber um centavo em troca. Isso não nos confere o direito de nos considerarmos superiores a ninguém. Também somos conscientes disso. Mas sem dúvidas que tanto esforço, tantas vidas regadas no caminho, tantos mártires sacrificados na tortura e nas masmorras, nos outorgam o direito a chamarmo-nos revolucionários e a ocupar o lugar que merecemos na construção do novo país. E isso, ninguém pode negar. Montanhas da Colômbia, 25 de maio de 2013. FARC-EP

domingo, 2 de junho de 2013

As FARC-Exército do Povo. Meio século de luta pela paz.

Por Miguel Urbano Rodrigues 31 de maio de 2013 O comunicado conjunto divulgado em Havana no dia 26 de maio pelas delegações das FARC-EP e pelo governo de Bogotá significou a abertura de um novo ciclo de diálogos de paz iniciados naquela cidade. Depois de seis meses de conversações difíceis, os representantes da guerrilha e do executivo colombiano assinaram um acordo para a “Reforma Rural Integral”, primeiro ponto da Agenda em debate. O documento aprovado prevê transformações radicais no mundo agrário. A maioria das principais exigências das FARC foi aprovada. Entre elas, a relativa ao acesso ao uso da terra, à formalização da propriedade, às terras improdutivas, aos programas de desenvolvimento social (educação, habitação, erradicação da pobreza), ao estímulo à produção agropecuária, ao Fundo de terras pela Paz, ao ambiente. No dia 11 de junho as delegações iniciam a discussão do segundo ponto da Agenda: a Participação Política, que abarca o tema crucial da Democracia. O presidente Juan Manuel Santos afirmou que está empenhado na continuação do processo “com prudência e responsabilidade”. Em uma Declaração emitida simultaneamente em Havana, as FARC-EP consideram positivo o acordo alcançado sobre a Reforma Agrária, mas alertam sobre as dificuldades do diálogo na Mesa de Negociações, sobre os pontos restantes da Agenda, especialmente os relativos à droga, ao cessar fogo e armamentos e à reintegração das populações expulsas de seus territórios. As FARC estão conscientes de que a conquista da paz é inseparável do desmonte da oligarquia que utiliza o Estado como instrumento de sua política de classe, marcada por uma repressão feroz. É significativo que quando cresce o apoio popular às iniciativas do Movimento Colombiano pela Paz, liderado pela ex-Senadora Piedad Córdoba, alguns ministros – entre eles Fernando Carrillo e o do Interior – falem outra linguagem, sugerindo o fim das conversações se antes do Natal não for assinado um Acordo Global. O alto comando das Forças Armadas também se empenha em sabotar os debates de Havana – apoiados por Noruega e Cuba – intensificando a guerra. Os 50 Drones – aviões assassinos sem piloto – recentemente adquiridos já haviam sido utilizados em bombardeios em La Macarena, Orito, Saravena e Catatumbo. A posição de Barack Obama é, como habitual, ambígua e hipócrita. Diz apoiar os diálogos para a Paz, mas envia o vice-presidente Joe Biden a Bogotá para derramar elogios sobre o governo da Colômbia, seu melhor aliado na América Latina, e expressar ali o desejo dos EUA de aderir à chamada Aliança do Pacífico. Cabe esclarecer que esta estranha aliança foi concebida em Washington para funcionar como contraponto ao Mercosul. Por ora, a integram México, Chile, Colômbia e Peru, países cujos governos desenvolvem políticas de submissão ao imperialismo estadunidense. O apoio militar à guerra contra as FARC-EP prossegue. Os EUA que já investiram mais de oito bilhões de euros no financiamento do Plano Colômbia, instalaram no país sete novas bases militares desde o início da Administração Obama. Meio século de luta Ao contrário da imagem edênica de país próspero em acelerado desenvolvimento pela ação de um governo democrático e progressista, imagem que Juan Manuel Santos difundiu em sua visita a Europa, a situação na Colômbia continua degradando-se. O paramilitarismo permanece impune com raras exceções. A corrupção desenfreada e a miséria, na capital e nas grandes cidades, são crescentes. As mais numerosas e bem equipadas forças armadas da América Latina – meio milhão de militares – absorvem uma quantia colossal do orçamento. A fome, endêmica em muitas regiões, afeta oito milhões de pessoas. 15.000 crianças morrem anualmente antes dos cinco anos por desnutrição. Dirigentes sindicais são assassinados cotidianamente todos os meses. Mas o número de multimilionários aumenta a cada ano em uma das sociedades mais desiguais do mundo. As FARC-EP, fundadas em Marquetalia depois de combates épicos na ruptura de um cerco, acabam de comemorar 49 anos de existência e de luta ininterrupta. Incluídas pela União Europeia e pela ONU na lista de organizações terroristas, caluniadas, acusadas de narcotraficantes por um presidente, Álvaro Uribe Vélez (aliado de Pablo Escobar, o rei da coca), as FARC se assumem como organização revolucionária, marxista-leninista. “Somos povo – afirmam – que empunha as armas contra as armas do poder e contra a repressão”. Moderadamente otimistas, tudo fazem para que as conversações de Havana permitam a concretização das aspirações de paz do povo colombiano. Mas não esquecem que uma das cláusulas da Agenda estabelece que o Acordo Geral de Paz somente será possível se todos os pontos nele incluídos forem aprovados. O rechaço de qualquer deles implicará a anulação dos demais. Por si só, essa exigência esclarece a falta de transparência e da má fé que foram permanentes nas posições dos delegados do governo na Mesa de Negociações. Hoje, como sempre, as FARC-EP defendem uma solução política cujo desenlace será a Paz definitiva em uma Colômbia democrática. Eles creem como Bolívar que as Forças Armadas devem ser o povo em armas, um instrumento da defesa da soberania nacional. Usa-las contra o povo, como ocorre na Colômbia, é um crime monstruoso.
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