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sábado, 9 de maio de 2015

Colômbia: A planificação do Terror Estatal e a estratégia de confundir



 Por Azalea Robles
As contradições entre acumulação de capital e sobrevivência da humanidade e do planeta alcançam níveis ostensivamente críticos, o complexo militar-industrial implementa cada vez mais guerras para continuar seu crescimento perverso. Neste contexto aparece como um imperativo ético e político a análise medular das guerras: já não podemos contentar-nos com as explicações falsas e pseudo antropológicas de “guerras tribais” ou de “não há cultura de paz nesses povos”: pronunciamentos cuja natureza destila colonialismo e constitui a argúcia para evitar ir ao centro do problema. Evidentemente, há abundância de pseudo estudos e instituições que difundem, alguns mais sutilmente que outros, essas premissas cosméticas. Aqueles que têm um altíssimo interesse em impedir a compreensão da realidade e, por conseguinte, a possibilidade concreta de transformação da mesma financiam estes tanques de pensamento.

  1. ‘Cultura de Aceitação do Saqueio’ disfarçada de ‘Cultura de Paz’
Seria digna de chuvas de risos numa representação de teatro grotesco a existência de “Estudos de Preservação do Meio Ambiente” financiados pela indústria farmacêutica ou petroleira, ou melhor, a existência de “Cátedras de Cultura de Paz” cuja linha se dedica a esquivar a análise da raiz da guerra. Cátedras ministradas na Europa ou nos EUA, em países nos quais radicam as principais empresas fabricantes de armas, e as depredadoras energéticas: umas cátedras que se centram em “ensinar” a bolsistas provenientes de países como Congo, Afeganistão, Colômbia etc a maneira de serem mais “pacíficos”, de “resolver os conflitos civilizadamente” e de “desenvolver uma cultura de paz”, ofuscando olimpicamente que a guerra e a paz têm raízes econômicas e se desenvolvem em contextos de desigualdade social e não são meros assuntos de Cultura. Assim, os países que dedicam milionários orçamentos em guerras imperialistas e cuja supremacia mundial radica numa história de práticas colonialistas e genocidas, muito distantes da Cultura de Paz que apregoam de fachada, ministram cátedras de assimilação mental à cultura da aceitação do saqueio mais desmedido, enquanto ‘bombardeiam humanitariamente’ em seu relance colonial. Assim, os bolsistas de países que sofrem a voracidade capitalista das guerras pelo saqueio dos recursos são adestrados na retórica que serve para perder de vista o núcleo do problema; é a raposa ensinando as galinhas com que tempero devem ser comidas.
Os apelativos “guerras tribais” e demais expressões consagradas no campo semântico destinado a prolongar o status quo encobrem guerras pela acumulação de recursos, guerras fomentadas com fins geopolíticos e econômicos claramente definidos pelos verdadeiros ‘Senhores da guerra’ que são os fabricantes de armas, os mercadores da energia, da alimentação industrial, e das multinacionais de químicos, todos motores da maquinaria depredadora do planeta.
Os países concebidos na lógica global capitalista como ‘armazéns de recursos’ a cada dia sofrerão de maneira mais cruenta a violência do saqueio e seu correlativo empobrecimento, que por sua vez causa êxodos massivos. Há uma carreira do grande capital por tornar-se a cada dia com mais recursos planetários.
O estudo do caso colombiano lança luzes indeclináveis sobre a realidade mundial: é uma mostra em quinta essência do capitalismo. Por esta razão, há um constante esforço midiático em tergiversar a legalidade colombiana, em invisibilizá-la e impedir a compreensão de uma realidade que é uma radiografia das metástases mais atrozes do sistema capitalista. A resistência do povo colombiano é, ademais, tergiversada e invisibilizada nesse esforço constante dos monopólios de difusão de implementar a guerra midiática contra a compreensão da realidade, fazendo-o ver as resistências populares como “terrorismo”. O estudo às fontes dos sujeitos históricos e sociais torna-se uma verdadeira façanha em meio ao amedrontamento contra a investigação social e o pensamento crítico: não obstante sua periculosidade, esse estudo é indispensável.

  1. Acumulação capitalista e Terrorismo de Estado em Colômbia
Na realidade colombiana se plasma o despojo e reacomodo territorial destinado em escala planetária a todas as zonas que apresentem um interesse econômico; uma lógica capitalista que não admite escrúpulos e constitui um ecocídio agregado a um genocídio. Em Colômbia são incitadas as estratégias do Terror correlativas ao saqueio capitalista. Estas são também exportadas como método de controle social, sabotagem, extermínio da reivindicação e contra insurgência a países da região [México, Honduras, Venezuela etc]
As cifras do Terrorismo de Estado em Colômbia são eloquentes: segundo um recente informe, um total de 19 defensores de direitos humanos foram assassinados em Colômbia durante o primeiro trimestre de 2015, e outros 276 foram agredidos.[1] Outro informe documenta que a Colômbia é o segundo país líder no assassinato de ambientalistas no mundo, com 25 assassinados em 2014.[2] 80% das violações aos direitos humanos e 87% dos deslocamentos populacionais ocorreram em regiões onde as multinacionais operam a exploração mineira. 78% dos atentados contra sindicalistas foram contra aqueles que trabalham na área mineiro-energética.[3]
A planificação da acumulação de terras mediante o despojo violento se expressa na existência de 6,3 milhões de pessoas despojadas e deslocadas de suas terras para benefício do grande capital, milhões de pessoas vivendo mal em cinturões de miséria.[4] O despojo se acelera: 40% do território colombiano está solicitado em concessão por multinacionais.[5]
O Terrorismo de Estado se expressa também em: 9.500 presos políticos;[6] a eliminação física de um partido político: a União Patriótica [5.000 pessoas assassinadas pelas ferramentas paramilitares e oficiais do Estado].[7] O extermínio contra a oposição política é tal que: “Em Colômbia se cometem 60% dos assassinatos de sindicalistas que se apresentam em todo o mundo, por uma violência histórica, estrutural, sistemática e seletiva que se converteu em pauta de comportamento do Estado colombiano”, segundo denuncia a CUT.[8] O Tribunal Sindical Mundial condenou ao Estado colombiano: “por ser responsável pelos feitos sistemáticos de violação do princípio de liberdade sindical, na qualidade de autor direto, coautor, cúmplice ou acobertador de homicídios, lesões, torturas, privações ilegítimas da liberdade, atentados [...]”.[9]
O genocídio se plasma nos níveis de desaparecimento forçado: a ONU estima que mais de 57.200 pessoas foram desaparecidas em Colômbia.[10] Um informe da Promotoria documenta: 173.183 assassinatos e 34.467 desaparecimentos forçados, cometidos pela ferramenta paramilitar, num período de apenas 5 anos.[11] Uma estimativa de Piedad Córdoba, baseada no cotejo de informes e no conhecimento da sistemática subavaliação dos registros oficiais, cifrou nuns 250.000 os desaparecidos em 20 anos.[12] A Coordenação Colômbia-Europa-EUA expressou que há um: “contínuo aumento dos casos [...] Os desaparecimentos forçados têm sido usados historicamente como um instrumento de perseguição política e de controle social baseado no terror, perpetrado por agentes do Estado e por grupos paramilitares que atuam com sua tolerância, omissão e aquiescência e que se beneficiam da impunidade [...] Os desaparecimentos forçados formam parte de uma prática sistemática de ataques contra a população civil, que têm sido funcionais à sustentação das elites sociais, políticas e econômicas do país”.[13] Há mecanismos para a impunidade: “O sub registro de casos de desaparecimento forçado, a impunidade que se consolida com diversos mecanismos legais e sociais e a presença dos perpetradores nas comunidades [...] Muitos casos não são denunciados pela má administração de justiça, pela ineficácia dos mecanismos de denúncia, pelo ambiente generalizado de temor e intimidação em que vivem os familiares das vítimas, seus advogados, as testemunhas [...] [Ibid] Se somam as leis que excluem a grande parte das vítimas de desaparecimento forçado dos registros, as leis que ampliam o acionar repressivo da polícia, e as leis que tentam cobrir de impunidade aos responsáveis: “o Governo do presidente Santos está promovendo um novo marco normativo com preocupantes limitações aos direitos das vítimas de desaparecimentos forçados.”[14]
A maior fossa comum da América Latina foi encontrada atrás do batalhão militar na Macarena, com 2000 cadáveres de desaparecidos pela Força Omega do Plan Colombia, força que tem estreita ‘assessoria’ estadunidense.[15]

  1. Planificação dos Crimes de Estado no marco da lógica de “dissuadir a reivindicação mediante o terror”
Há uma lógica no Terrorismo de Estado: e é que a maior tortura e degradação das vítimas, maior alcance da “mensagem dissuasiva” nas comunidades. A estratégia da dissuasão mediante o terror está teorizada nos manuais do exército: se concebe a população como “o inimigo interno”, e se preconiza claramente o emprego de uma ferramenta paramilitar para realizar os massacres e as torturas. O paramilitarismo foi preconizado para a Colômbia desde a missão estadunidense Yarborough, [16] e reiteradamente reforçado até nossos dias. A ferramenta paramilitar é adestrada para torturar e treinada por [de]formadores dos EUA e Israel, como o mercenário Yair Klein.[17] Se trata de perpetrar Crimes de Estado como o crime contra a menina Alida Teresa Arzuaga, de 9 anos, violada e assassinada para torturar a seu pai [preso político], e paralelamente injetar medo na oposição política;[18] ou como o massacre da família do militante comunista e da UP Julián Vélez, cujo filho foi torturado e castrado.[19]
Se trata, no marco desta planificação do Terror Estatal, de perpetrar massacres como o massacre de Mapiripán. Os paramilitares foram transladados em aviões do exército do norte ao sul da Colômbia, e levados pelo exército ao lugar do massacre.[20] Estiveram amputando e violando durante 10 dias, enquanto o exército impedia que entrasse ou saísse ninguém: devido ao cerco do exército, ninguém pôde dar auxílio à população. Umas 60 pessoas foram assassinadas: submetidas a toda classe de torturas. Até hoje há dificuldade para identificar as vítimas, dada a barbárie com que a ferramenta paramilitar procedeu a esquartejá-las e lançá-las ao rio. Segundo confessou o General Uzcátegui numa gravação: “sabe o que fez a Brigada Militar Móvel 2? Colocou um colchão de segurança para que os paramilitares saíssem. O exército não só tem vínculos com os paramilitares, não só não os combateu, como também combateu as FARC para que as FARC não golpeassem os paramilitares”.[Ibid] Enquanto os paramilitares torturavam, o exército garantia as atrocidades combatendo as FARC que tentaram romper o cerco militar para auxiliar a população. O exército garantiu que o massacre compreendesse as torturas mais aberrantes: não era “uma bala perdida”, era uma operação de Terrorismo de Estado dentro da estratégia de terra arrasada nos Planos Orientais, na qual esteve envolvida a assessoria estadunidense. O bispo do Guaviare depôs: “Passaram caminhões com ao cerca de 120 homens à paisana sem armas; depois de passar pelo batalhão, saíram com uniformes e armados [...]; outro grupo de paramilitares também se deslocou, porém pelo rio Guaviare, passando pelo ponto de controle militar sobre o rio”.[Ibid]
Outro crime de Estado que evidencia de maneira flagrante esta planificação do terror é aquele cometido por militares e paramilitares contra a comunidade do Cacarica, quando “jogaram futebol com a cabeça” do líder campesino afrodescendente Marino López. A Operação Militar ‘Gênesis’ consistiu em aterrorizar a comunidade para forçá-la a um massivo deslocamento populacional: “Os paramilitares e também militares cercaram todo o casario. Nos juntaram a todos [...] Dois dos doze militares agarraram Marino [...] Insultam-no, golpeiam-no. Um dos criminosos pega um facão e o corta no corpo, Marino tenta fugir e se joga ao rio, porém os paramilitares o ameaçam, ‘se foge, vai ser pior’. Marino regressa, estende seu braço esquerdo para sair da água. Um dos paramilitares lhe corta a cabeça com o machete. Depois lhe cortam os braços em dois, as duas pernas... E começam a jogar futebol com sua cabeça. Todas e todos vimos. Tudo foi terror.”[21] Os habitantes denunciaram o acionar da Brigada XVII. Vários paramilitares do bloco Elmer Cárdenas, sob o mando de Freddy Rendón, vulgo “El Alemán”, acusam ao General Rito Alejo del Río como um dos máximos responsáveis: “Se tratou de uma operação conjunta”, relataram ante o Fiscal de Justiça e Paz.[22]
A lista de crimes de Lesa-Humanidade perpetrados de maneira sistemática pelo Estado colombiano contra a população, no marco de uma planificada estratégia do terror e desapossamento, seria interminável. O Estado colombiano e seu mentor estadunidense pretendem continuar viabilizando o saqueio dos recursos aterrorizando a população cuja reivindicação entra em conflito com a depredação capitalista. Se pretende eliminar toda oposição, seja esta armada ou não.
O depoimento de Marinelly Hernández, presa política, é ilustrativo das aberrantes torturas que o Estado colombiano comete contra os familiares dos opositores políticos, principalmente se estes são insurgentes, uma realidade silenciada: “A nosso pai, o Exército colombiano, em união com os paramilitares, o pendurou vivo por suas mãos introduzindo ganchos em suas extremidades como se fosse carne de açougue, depois lhe feriram o estômago e todo seu corpo com uma navalha, depois destruíram seus lábios como se lhes talha aos pescados, por último lhe deram um tiro de misericórdia; segundo a medicina legal, a nosso pai o torturaram vivo. Tinha 70 anos. Como é possível que façam isso com um ancião, rotulando-o de guerrilheiro? Por acaso, por eu ser revolucionária, tinham que cobrar com a vida de meu pai?[23] Aqui, a tortura aberrante claramente tem por objetivo enviar uma mensagem de terror aos que pensem ingressar na insurgência. Estas práticas genocidas são recorrentes.
Marinelly expressa a correlação entre o saqueio dos recursos e os massacres perpetrados pelo exército e a ferramenta paramilitar contra a população das zonas cobiçadas pelo grande capital. Aqui se refere ao massacre do Rio Nare: “O Capitão Martínez com suas tropas ingressaram numas minas de ouro onde se encontravam os campesinos sacando o mineral; um dia antes, lançaram panfletos dizendo-lhes que desalojassem, e no outro dia entraram com motosserras e machados: amarraram os trabalhadores em cadeia... iam soltando-os de um em um, sem assassiná-los, lhes cortavam os braços, as pernas e depois de cada pessoa recolhiam só um braço, só uma perna, faziam um montão e atiravam-no ao rio e outros aos buracos das minas e outros os deixavam para que as aves os comessem”.[Ibid] Marinelly, de uma família campesina, viveu em carne própria as agressões do exército colombiano contra o campesinato; foi testemunha de múltiplos assassinatos de amigos e familiares, cujos corpos foram abandonados torturados e desmembrados: “parte da guerra suja e psicológica que implementam para assustar aos lutadores populares”. A presa política explica que as violações do Estado colombiano a impulsionaram para a insurgência, como sua: “única forma de preservar a vida, lutar por ela e reclamar nossos direitos”, e evitar “terminar massacrada, torturada ou inválida por ser exemplarizada como ficam muitos campesinos, ou terminar sendo deslocada e vivendo das esmolas nas cidades”.[Ibid.]
A combinação do saqueio dos recursos e do Terror de Estado exercido contra os que se opõem ao saqueio explica a existência das insurgências colombianas como única saída que encontra uma população submetida ao despojo e à repressão mais descarnada frente a suas reivindicações. Esta é uma compreensão indispensável para os que desejamos a paz em Colômbia. A paz significa justiça social, cessar da entrega do país em concessões a multinacionais, reforma agrária, soberania alimentar, e cessar do Terror de Estado que hoje facilita a acumulação capitalista em detrimento das maiorias empobrecidas. Os problemas devem ser resolvidos a partir de suas causas, não a partir de suas consequências.

  1. Denunciaremos os crimes resultado de uma planificação Estatal, ou vamos continuar promovendo a confusão?
Estes crimes de Estado enviam uma mensagem do terror contra a população: “Isto pode ocorrer com vocês ou com seus familiares, se persistem em sua reivindicação’. Há um claro intento de paralisar a ação reivindicativa das comunidades, e esse terror se exerce a partir do próprio Estado, num acionar que obedece a alguns interesses econômicos claros: é inaceitável, portanto, que se tente creditar os crimes “à violência” em abstrato, como reiteradamente o fazem os mass media com os crimes do Terrorismo de Estado. A mensagem é enviada pelos verdugos através de seus executantes paramilitares, e não é aceitável que os maquiadores midiáticos venham garantir a impunidade total aos que são os verdadeiros mandantes destes crimes: os que se servem do terror para subjugar a um povo e para garantir a acumulação de capital em poucas mãos, em detrimento do meio ambiente e das maiorias. O tentar, mediante o aparelho midiático, transformar os reiterados assassinatos políticos em “vítimas dos violentos” [assim, “os violentos”, em abstrato], busca diluir responsabilidades, busca ocultar a planificação de um Terror que de maneira sistemática é exercido a partir do próprio Estado contra a oposição política. Essa farsa midiática não cala nos setores mais conscientes do campo popular; no entanto, em parte da opinião pública, sim, faz efeito.

  1. Ofensiva contra a compreensão da realidade: Estratégia da Confusão
A Estratégia da Confusão é implementada até a saciedade pelo aparelho midiático: por exemplo, o redigir notas sobre crimes em que se conhece perfeitamente que a autoria é paramilitar, porém põem “assassinado por grupos armados”: isto com a clara intenção de exculpar a ferramenta paramilitar que serve ao poder econômico e de buscar impingir à resistência popular parte dos crimes perpetrados pela estratégia paramilitar.
O léxico “grupos armados” ou “atores armados” é um léxico da confusão, dado que grupos armados são tanto os paramilitares, como o exército, como as insurgências; portanto, não há nada mais aberrante que conhecer que os vitimários são parte de uma Estratégia repressiva Estatal e paraestatal, articulada do poder multinacional, e optar por tecer o discurso da confusão. Esta midiatização é indignante, e constitui uma dupla vitimização das comunidades que denunciam aos responsáveis, e que no entanto veem ignoradas suas vozes nas notas midiáticas, de maneira com que a ferramenta paramilitar-militar do terror não somente tenha cometido as atrocidades como também que os meios não assinalem sua responsabilidade, amparando-a assim da impunidade que a perpetua.
Parte da Estratégia da Confusão é o emprego da falsa dicotomia “grupos armados legais” versus “grupos armados ilegais”: sendo legais as forças repressivas do Estado, enquanto que na ilegalidade se acham tantos as forças repressivas paramilitares –que, no entanto, se articulam ao próprio Estado, recebendo logística, armamento e impunidade-, e as guerrilhas –estas últimas de natureza oposta ao paramilitarismo-. Esta perfídia midiática busca instaurar um campo conceitual que ignora a realidade do paramilitarismo como estratégia preconizada em manuais militares. Também busca instalar um campo conceitual que exclui o caráter político e social do conflito colombiano, ao tentar apresentar as insurgências num mesmo pacote com o paramilitarismo; tentando arrancar da guerrilha seu caráter político, inerente à sua própria gênese e composição, de ser uma expressão do campo popular colombiano que se levanta em protesto político contra o saqueio, protesto político que acontece devido à impossibilidade democrática instaurada desde o Estado mediante a sistemática repressão ao opositor político.
O paramilitarismo é uma ferramenta a serviço do Grande Capital que atua com a plena coordenação do exército colombiano; porém, os meios [de comunicação] trabalham para ocultar a vinculação desta ferramenta com os que a criam e empregam. Lamentavelmente este trabalho sistemático dos meios [de comunicação] consegue colonizar parte importante da população, deixando inclusive marcas residuais que surpreende encontrar nas mentes das próprias vítimas. O bombardeio midiático é uma ofensiva sem trégua contra a capacidade de compreensão da realidade e, portanto, contra a possibilidade de ação efetiva sobre a mesma.
Por isso é importante desmascarar essa planificada manipulação semântica elaborada pelos tanques de pensamento. Essa manipulação é também injetada no discurso das ONGs através do condicionamento que os financistas impõem, conseguindo paulatinamente que no campo popular se introduza uma semântica que obstaculiza a capacidade de compreensão da realidade. Há uma planificação do terror para facilitar a acumulação capitalista em mãos de multinacionais e do latifúndio; frente ao genocídio não cabe mais cair no apagamento das causas do drama colombiano, nem jogar à confusão, nem adotar o léxico imposto pelos tanques de pensamento da USAID.

NOTAS de “La planificación del Terror Estatal y la estrategia de confundir”
No caso de não figurar as notas completas na presente publicação, consultá-las em www.azalearobles.blogspot.com



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Esclarecimento da verdade e compromisso de não repetição

A construção da Paz em Colômbia obriga a esclarecer a verdade sobre os fatos ocorridos durante a confrontação política, social e armada, com suas causalidades e suas consequências, o qual implica precisar o papel jogado pelos distintos intervenientes, no caso das FARC-EP no exercício do direito à rebelião, e exige ao oferecimento de sólidas garantias de não repetição.
Em desenvolvimento do estabelecido no ponto V da Agenda de Conversações, “Vítimas”, as FARC-EP estamos trabalhando para que uma Comissão de Esclarecimento da Verdade e a Não Repetição, na qual participe livremente e com as devidas garantias o conjunto das comunidades, e em especial as vítimas do conflito, possa constituir-se e trabalhar eficazmente em conseguir o cumprimento de um objetivo imperativo e altruísta, que, se bem que devem ser produto de um acordo político na Mesa de Diálogo, toda a sociedade possa ter possibilidade de reclamar seu cumprimento.
Os diálogos de paz brindam hoje uma ocasião única para alcançar a justiça social, a reconciliação e a recuperação de nossa memória coletiva, dando-nos a oportunidade de conhecer os erros de nossa história, para nunca mais voltar a repeti-los e conseguir assim transitar por um caminho de concórdia em que não existam mais as exclusões políticas, a carência de democracia, a imposição da miséria e da desigualdade que geraram e continuam gerando inconformidade e guerra.
Por isso, tal como está expressado em nossas propostas públicas, defendemos com convicção uma Comissão com um amplo mandato que lhe permita, de forma rigorosa e independente, conhecer sobre as graves e massivas infrações aos direitos humanos –incluídos direitos econômicos, sociais e culturais-, os graves crimes de guerra e os atos de lesa-humanidade ocorridos durante o conflito, assim como identificar –de forma individual e coletiva- a seus responsáveis diretos, a seus instigadores, financiadores e facilitadores, a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, por ação ou omissão, permitiram que ocorressem os fatos anteriores ou estimulassem sua realização, em especial aqueles que permaneceram historicamente na impunidade.
A Comissão de Esclarecimento da Verdade e a Não Repetição não deve ser equiparada a um órgão judicial, de fato, se trata de um mecanismo extrajudicial de investigação, esclarecimento e sanção, devendo determinar-se em seu Mandato, com um especial acento de gênero e reconhecimento da mulher, de forma aceitável para toda a sociedade colombiana o alcance de cada uma destas funções. Tudo isso não com uma intenção vingativa mas sim para alcançar eficazmente a reconciliação, a reparação integral das vítimas, a restauração do dano causado a estas, ao tempo em que se constroem sólidas garantias de não repetição dentro do novo cenário social que surja da implementação dos acordos. Será Imprescindível que cada parte reconheça a responsabilidade que lhe concerne, sendo isto em especial uma obrigação indeclinável do Estado infrator.
Este Mandato não poderá cumprir-se sem que previamente se abram os arquivos onde se encontra a documentação que permitirá esclarecer o ocorrido. Também será fundamental dotar a Comissão de faculdades para garantir o comparecimento de pessoas, ou para acessar os lugares onde repousam as evidências do ocorrido. É sua obrigação ética preservar todas estas fontes e garantir sua utilização, sem limite algum, durante e depois de concluir o trabalho da Comissão, sempre em busca da Verdade plena, da Memória Histórica e das mais altas cotas de Justiça.
Se bem que um capítulo especial da Comissão de Esclarecimento da Verdade deverá ser o que trate do tema do paramilitarismo, o desmonte de tal fenômeno tem que iniciar-se desde já. Daí que, em função do ressarcimento das vítimas e da prevenção de novas vitimizações, persistamos em nossa exigência de estruturar de imediato a instâncias da Mesa de Conversações, uma Comissão para o Esclarecimento e Desmonte do Paramilitarismo.
Finalmente, defenderemos que as recomendações e conclusões emitidas pela Comissão de Esclarecimento da Verdade possam ser cabalmente levadas à prática, estabelecendo para isso um mecanismo de seguimento a sua implementação, o qual deverá estar constituído principalmente por organizações de vítimas.

DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP.
La Habana, maio 2015

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

A CIA e sua simpatia pela campanha contra Dilma

Darío Pignotti - Página/12


-Washington apoia o movimento de desestabilização do governo de Dilma? Foi que o este diário perguntou a políticos e acadêmicos brasileiros que, invariavelmente, responderam que “sim”, mas quase todos sob condição de anonimato. Alguns solicitaram o sigilo alegando carecer de provas, outros, possivelmente, por temor às chicotadas da imprensa, que ridiculiza esse tipo de especulação relacionada à intervenção norte-americana.

O Brasil vive sob um estado de sítio midiático, onde se difama sumariamente qualquer um que apoie o governo, denuncie o golpe branco ou insinue que a presidenta recebe apoio externo. O chefe da bancada de deputados do PT, Sibá Machado, não se coíbe diante das críticas da imprensa tradicional e responde sem papas na língua ao que indagamos sobre uma eventual conexão estadunidense. “Tem que ser muito inocente para supor que uma campanha de desestabilização como essa não recebe nenhum tipo de apoio de fora. Chama a nossa atenção que nenhum dos meios de imprensa investigue esse tema, quando é bastante lógico pensar que tudo isso está manipulado desde altas esferas”.

– As “altas esferas” a que você se refere seriam as da Inteligência norte-americana?

– Já disse, e continuo dizendo, que trabalho com a hipótese de que a Inteligência golpista que está atuando na América do Sul não se limita à Inteligência de cada país. Estamos enfrentando interesses que vêm de fora da região em represália a vários governos sul-americanos que assumiram uma linha de maior independência dos Estados Unidos. Vejamos o que está se passando na Venezuela, no Brasil, na Argentina. Vemos muitas semelhanças nas ações contra esses governos, na linguagem utilizada, no papel dos grandes meios de comunicação, no papel jogado pelo Poder Judiciário.

Se olhamos para trás teremos mais exemplos, como o golpe contra Hugo Chávez (2002), o golpe com maquiagem institucional contra o presidente paraguaio Fernando Lugo (2012) e aqui também estamos vendo, agora, quando a oposição busca o parecer de juristas para justificar o impeachment (julgamento político) contra a presidenta Dilma.

– Existem documentos sobre a participação da CIA e da NSA?
– Não tenho documentos, estou formulando uma hipótese a partir dos antecedentes e elementos políticos. Trabalho com a hipótese de que a CIA e outros órgãos de Inteligência como a NSA estão operando, é algo que podemos perceber. E essa desestabilização regional tem interesses particulares no Brasil, onde o PT ganhou quatro eleições consecutivas, todas desde 2002. Vamos fazer uma retrospectiva. Não caiu bem para os norte-americanos a atitude da Dilma, suspendendo a visita de Estado a Washington, em 2013, devido à espionagem que ela sofreu por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA). Os Estados Unidos tampouco viram com satisfação a nossa participação na formação dos Brics, na criação de um banco alternativo ao Banco Mundial, de uma agência alternativa ao FMI. Eles não aprovam nenhuma mudança mais importante na ordem geopolítica e econômica. Não gostaram dos investimentos na construção do Porto de Mariel, em Cuba, da diversificação dos mercados, do novo paradigma da política externa brasileira, entre outras coisas.

Aécio e os reacionários

Depois de ser derrotado nas eleições presidenciais de outubro de 2014, Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), adotou um discurso incendiário contra Dilma, exigindo sua destituição através de um processo de impeachment, considerado inapropriado até mesmo por caciques do seu partido, como o ex-mandatário Fernando Henrique Cardoso.

Durante a entrevista com Página/12, em seu escritório na Câmara dos Deputados, o petista Sibá Machado fala da proximidade entre Aécio e os dirigentes venezuelanos acusados de conspirar contra o presidente Nicolás Maduro. E mencionou a recente participação do líder opositor brasileiro no Fórum de Lima, onde ele confraternizou com grandes nomes da direita latina, como o ex-presidente uruguaio Jorge Batlle, o escritor peruano Mario Vargas Llosa e o cubano-estadunidense Carlos Alberto Montaner, paladino do pensamento reacionário de Miami.

– Como Aécio se articula com seus colegas latino-americanos?

– Por um lado, está a sua atividade pública. Esteve em Lima, onde se reuniu com familiares dos golpistas venezuelanos (as esposas de Leopoldo López e Antonio Ledezma, ambos processados). Pelo que vejo, Aécio está tomando o modelo da ultra-direita venezuelana. Na realidade, esses contatos internacionais me lembram muito a Operação Condor, quando as ditaduras atuavam em rede. E digo mais, suspeitamos que Aécio se comunica frequentemente com outros golpistas, que mantém reuniões clandestinas e que se articula para semear a instabilidade contra os governos progressistas.

– Uma das bandeiras de Aécio agora é a corrupção na Petrobras….

– Mas é curioso que logo o Aécio venha a criticar a Petrobras, pedindo o fim o novo marco regulatório da exploração do petróleo, implantado nos governos do PT. Aécio defende o mesmo discurso das empresas multinacionais com sede nos Estados Unidos. Estou convencido de que os norte-americanos não estão satisfeitos com a nova lei do petróleo, que dá muito poder à Petrobras. Eles preferiam o modelo anterior, de concessões, que era um paradigma entreguista conveniente para as multinacionais. No entanto, a lei que aprovamos garante que o petróleo é um patrimônio nacional.

– Dilma viajará a Washington em junho, mas até agora os EUA não deu satisfações ao Brasil sobre os documentos roubados dos arquivos da Petrobras.

– Digo novamente que não tenho documentos, mas desconfio que parte dessa informação roubada pela NSA a respeito da Petrobras tenha parado nas mãos de líderes da oposição. A NSA e a oposição golpista, não tem escrúpulos, jogam no vale tudo, o que eles querem é desmontar a Petrobras e as grandes empresas nacionais brasileiras. O que aconteceu aqui foi muito grave. A NSA roubou segredos de Estado, é possível que eles tenham tido conhecimento prévio dos descobrimentos dos gigantescos poços de petróleo em águas profundas, da zona do Pré-Sal (revelados pelo governo brasileiro em 2007), e que tenham manejado essa informação antes de o ex-presidente Lula anunciar isso publicamente.


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A 15 anos do Movimento Bolivariano.

“…Temos o dever de contribuir para resgatar o espírito bolivariano em meio ao matagal mentiroso da interpretação oficial e pró-imperialista de sua obra, com o propósito de tornar viva sua imagem às massas populares da América. São elas as herdeiras legítimas de seu ardente pensamento genitor, e o limo fecundo que há de encarná-lo e multiplicá-lo na hora de agora e na história dos séculos”.
Gilberto Vieira.
Se cumpre hoje o décimo quinto aniversário do lançamento do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia. Um movimento político amplo porém clandestino que surgiu numa data como hoje em 2000 durante o Processo de Paz que se adiantou em San Vicente del Caguán.
O Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia continua reunindo povo na clandestinidade, agitando suas brancas bandeiras de paz e o amarelo, azul e vermelho tremulando na luta pela pátria do futuro, a que sempre queremos em paz, com democracia, com dignidade e com soberania.
Em Havana, também estamos construindo a nova história da Colômbia.
Quanta razão tinha em suas palavras o legendário guerrilheiro Manuel Marulanda Vélez quando, dirigindo-se naquele 29 de abril de 2000 a milhares de homens e mulheres e à juventude reunida, manifestou:
“Este encontro vai ser histórico em Colômbia pelo surgimento de um novo Movimento onde todos, sem distinções políticas, raças ou credos possam agrupar-se para defender seus interesses econômicos e sociais, com a certeza de que estamos abrindo caminhos para uma nova democracia, sem o temor de ser assassinados pelo Estado, e ao mesmo tempo lutando contra a intervenção dos Estados Unidos em nossos assuntos internos...”
E, por sua vez, o comandante Alfonso Cano, chefe desse Movimento Bolivariano que começava a desdobrar sua potência transformadora, quando explicou a proposta política como um instrumento civil, amplo, poli classista, orientado para a conquista do poder, para o ressurgimento da Colômbia sob uma nova ordem social justa, com umas Forças Armadas inspiradas no espírito de nosso Libertador, garantidores da liberdade, da soberania e das conquistas sociais.
“As práticas do exercício político –dizia o Comandante Cano naquela ocasião- devem transformar-se, mudando o que Gaitán chamou os “velhos costumes da pequena mecânica política” para dar passagem ao exercício de uma democracia essencialmente direta, onde as execuções dos administradores da coisa pública se correspondam estritamente com a vontade popular. Construir o Quarto Poder ou o Poder Moral, como ensinou nosso Libertador, a partir do povo, para erradicar a corrupção e assinalar direções éticas certas aos administradores e à própria sociedade. Fazer da liberdade de imprensa uma realidade que impeça o monopólio, a manipulação e a desinformação. Revogar o mandato de todos os politiqueiros responsáveis pelo caos atual e alicerçar precedentes exemplares que erradiquem a impunidade das arbitrariedades que foram exercidas a partir do poder contra a nação inteira”.
“...O rosto semioculto do Libertador Simón Bolívar que faz parte da presidência deste ato e que descobre seu nobre e profundo olhar, -dizia o imolado comandante-, significa que o novo Movimento Político terá um funcionamento clandestino. A amplitude dos objetivos a conquistar não ocultam os perigos que pairam sobre sua existência.
Não repetiremos a experiência da União Patriótica onde a heroicidade de seus integrantes e a generosidade que caracterizou seu compromisso foram brutalmente abatidas pelas Forças Armadas oficiais em trajes civis, até praticamente fazê-la desaparecer”.
...Assim que todos e cada um dos integrantes do Novo Movimento terão uma atividade dentro do setor social onde viva, trabalhe ou estude, sem que seja de público conhecimento seu pertencimento político. Como todos os bolivarianos, deverá fazer esforços por colocar-se à frente das lutas pelas reivindicações do povo e só compartilhará seu segredo com os poucos companheiros que lhe sejam destinados para trabalhar. Ninguém mais será conhecedor de seu pertencimento bolivariano”.
“Difícil?, se perguntava o comandante, certamente sim, porém todos devemos relembrar que são os inimigos do poder os que impuseram as condições. Se as circunstâncias políticas mudam positivamente pela ação popular ou o processo de diálogos avança significativamente, ou se crescemos até ser maioria atuante e combativa, analisaremos a conveniência de novas formas de trabalho e de organização”.
Dentro de tais lineamentos tem marchado o Movimento Bolivariano durante estes 15 anos, aspirando a poder em algum momento mostrar seu rosto pleno porque se abriram em Colômbia as amplas avenidas da democracia.
Como diz a Carta de Reunião do MB: esta nova construção política alternativa é um movimento amplo, sem estatutos, regulamentos, nem discriminações, com exceção dos inimigos do povo. Não tem escritórios e sua sede é qualquer lugar da Colômbia onde haja inconformistas. No Movimento Bolivariano cabem todos os patriotas que sonhem com a concretização do pensamento político e social do Libertador. “Sua base a constituem milhões de colombianos vinculados aos núcleos clandestinos, de múltiplas e variadas formas como círculos, juntas, oficinas, famílias, uniões, irmandades, grupos, clubes, associações, conselhos, mesas de trabalho, mingas, confrarias, comitês e todas as formas que a bem tenham seus integrantes adotar e que, a seu ver, lhes garanta o segredo de pertencimento e a compartimentação”.
Hoje, a 15 anos de seu lançamento lá no Caguán, estamos renovando esse chamamento:
Todas e todos os que se sintam bolivarianos venham com nós outros, que o Movimento Bolivariano é uma imensa bandeira ao vento que segue em construção e que poderia ter neste momento a possibilidade histórica de dar o salto à luta política aberta, sempre e quando, como dissera Alfonso, AS CONDIÇÕES O PERMITAM.
É necessário, então, levar adiante este processo de paz que acendeu novamente a chama da esperança.
A unidade nos está dizendo nas mobilizações populares e em todos os rincões da pátria inconformista que é factível um triunfo popular se nos levantamos como um só punho de indignação frente ao mau governo.
A Colômbia pode ser governada de outra maneira. E isso é o que as FARC-EP queremos. Nos perguntamos: Por que têm que reger nosso destino as mesmas castas oligárquicas de sempre?
Estamos fatos de corrupção, de magistrados corruptos, de sistemas eleitorais fraudulentos, da entrega de nossas riquezas e nossa soberania às transnacionais, de arbitrariedades do poder e da brutal repressão, sim; porém, também sabemos que “não há melhor maneira de alcançar a liberdade que lutar por ela”.
Temos a certeza na vitória da reconciliação dos colombianos e é por isso que convocamos à rebeldia da juventude, às mulheres descendentes da Pola, aos campesinos, aos povos indígenas e comunidades negras, aos trabalhadores e desempregados, aos acadêmicos, aos policiais e militares bolivarianos, aos que queiram pátria soberana, a todos eles os convidamos a reunir-nos neste Movimento que nasceu há 15 anos em San Vicente del Caguán, como um instrumento de todos e todas para mudar a política, a economia, a educação, em favor da justiça social e do humano, com o sentimento de solidariedade que todos levamos por dentro.
Vamos, pois, pôr nosso peito nesse ideal, à restauração moral da República, confluindo na imensa exuberância da Constituinte, com sua força transformadora que há de abrir passagem à materialização do Tratado de Paz que todos desejamos que ponha fim a esta guerra, de um tratado de paz que nasça das mãos do povo colombiano que é o máximo poder soberano que nossa nação tem.
Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.
La Habana, Cuba, 29 de Abril de 2015.
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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Colômbia: De qual paz fala, senhor Santos? Ou a fábula do farsante e a pomba ultrajada



Por: Matilde E Trujillo Uribe I Abril 2015 I

De que paz fala, senhor Santos? Isso tenho me perguntado quando vejo os horrores que você e o governo que preside assestam sobre o povo. Uma profanação de todos os direitos, uma armadura de poder e submissão, um simulacro de democracia com a morte cavalgando. Há três meses e 23 dias que iniciou neste ano e em tão pouco tempo os fatos gerados a partir de seu poder e do de sua classe espantam. Em linhas posteriores me referirei a alguns. Continuam a brutal política de extermínio, saqueio, despojo, entrega do país às multinacionais.[1] Vocês entregam nosso país como se fosse sua propriedade privada. Essas são, entre outras, as “graças” de sua classe, para as terríveis desgraças do povo. Não é diferente do que vem sucedendo com os sucessivos governos de turno desde a Frente Nacional, a não ser pelo incremento do sistema da cobiça.[2]
Julgará você, ainda que seu julgamento assinado por interesses USA não deve ser muito equânime. Então, os leitores julgarão. Senhor presidente Juan Manuel Santos, você tem ultrajado e fendido a paz, sem deixar lugar nem rincão algum do país sem essa marca de humilhação e barbárie própria de sua classe contra os humildes. Vocês impuseram a guerra. Como? Deslocando, massacrando, reprimindo, assassinando, encarcerando, empobrecendo, desaparecendo camponeses, indígenas, trabalhadores, operários, desempregados, estudantes, sindicalistas... e mais dos ninguéns, como diria o grande Galeano. Guerra que indolentes dissimulam com sorrisos de papelão, trajes de gravata e discursos de bobos da corte.
Porém, você fala de paz com arrogância em todos os cenários –há pouco se deleitava na Cúpula das Américas-. A paz é para você essa falsa roupagem com que vem se cobrindo desde que começaram as chamadas conversações com os insurgentes. A essa paz que você pronuncia, contrária aos fatos, temos de substitui-la e combatê-la até enterrá-la e lhe poremos uma cruz de estrada, como as que se veem a caminho de Buenaventura de terrível desventura. Inicio com alguns desses fatos da degoladora paz que alenta sua importante classe.
Fatos escabrosos: corpos desmembrados, desfigurados, torturados. As “casas onde os paramilitares esquartejam” : matança humana que mostra a demência paramilitar e o anticomunismo que lhe infundiram em suas entranhas os instrutores militares. Como é possível que um país mantenha tal grau de horror? Como se incuba e desenvolve? Você anunciou há mais de um ano ante a opinião pública que buscaria resolver esse assunto... Não é para menos, é um imperativo, uma exigência, uma obrigação sua como presidente! Porém... Que fez você? Militarizou a Colômbia. E pareceria um paradoxo que com toda essa força militar continua viva a tragédia; se não se soubesse que o paramilitarismo está preconizado nos mesmos militares. Você adianta a Aliança Pacífico –OTAN-, seu Master Plan 2050, os megaprojetos de ampliação portuária, a exploração mineira, a nova zona industrial que assentarão nos que antigamente foram os bairros que arrasaram a população nativa. Em Buenaventura agita a caldeira do diabo: desaparições, massacres, despojo, desterro e deslocamento. Expulsam com toda barbárie a seus habitantes para seus planos pró-imperialistas. O que podemos deduzir, senhor Santos?
E na Guajira, onde o mar há de estar bramindo de dor, os indígenas Wayúu estão morrendo de fome e sede, porque o rio mãe do qual se abasteciam, seu rio ancestral, foi represado e sua água privatizada pela exploração da maior mina de carvão [a céu aberto] do mundo. Por efeito disso e das condições deploráveis de descuido e abandono, as crianças estão morrendo de inanição, as mulheres de dor, os homens de desolação, os velhos de tristeza. É outro feito de paz, senhor Santos? Esta, a maior etnia indígena da Colômbia, atacada por seu governo que entrega, e respalda, não a seu povo mas sim às multinacionais que saqueiam o país.
Outro acontecimento recente que reitera a indolência de sua paz e a de sua classe ocorreu no norte de Antioquia: as Empresas Públicas de Medellín e a polícia da qual vocês tanto se vangloriam procederam a desalojar crianças, velhos, mulheres e homens que habitavam ancestralmente as ribeiras do cânion do rio. Comunidades que encontravam seu sustento através da procura do ouro mediante o método artesanal, da pesca e da agricultura tradicional respondendo a suas necessidades de subsistência. A inspetora ordena desocupar o lugar em três horas, o esquadrão móvel antidistúrbios –ESMAD, esse aparato de guerra, repressão e morte que vocês têm para silenciar marchas, protestos, greves, os cerca intimidando-os e afrontando-os. Como consequência, mais de 81 pessoas se veem obrigadas a deslocar-se.[3] Se enfurecem contra os despossuídos para beneficiar seus cofres?
Repressão! Esse é o tratamento com que você e seu governo ultrajou também aos humildes cortadores de cana que tiveram que recorrer à greve para defender seus direitos. “Às 5 da manhã..., um numeroso contingente do ESMAD atacou com força brutal a mais de 500 cortadores de cana do Engenho Risaralda”. “Agarraram-nos dormindo e lhes caíram em cima com paus e porretes. Até lhes tiraram seus facões e começaram a investir contra eles”. “Moeram-nos a golpes e neles dispararam bombas lacrimogêneas à queima-roupa”. Sem palavras, que podemos pensar, senão que seu sobrenome deveria aludir aos mil demônios.[4]
E no norte do Norte do Cauca a população indígena, dado o descumprimento do Estado –devolver-lhes as terras-, se viram impelidos à Minga de Libertação da Mãe Terra. Procederam a tomar as terras que lhes haviam sido despojadas, que fez você? Seu governo reitera a violenta agressão mediante seu aparato de terror, o ESMAD, gases lacrimogêneos, artefatos não convencionais e armas de fogo. O resultado: crianças, mulheres e homens feridos. Não tinham passado senão escassos dois meses, quando assassinam a 6 comuneiros indígenas, o massacre[5] foi silenciado pela mídia [enquanto faziam algazarra pelos 11 soldados mortos, fato simultâneo, ao qual em seguida me referirei]. Os assassinatos dos 6 comuneiros são aqueles tão característicos da conivência de paramilitares e exército. Se atracam contra os humildes, pois não vimos que tal atrocidade suceda aos que fazem parte de sua classe.
Nas regiões do Meta, do Cesar, do Magdalena, assim como na do Magdalena Medio, que melhor testemunho que o da delegação Asturiana de Verificação dos Direitos Humanos que esteve neste ano no país realizando esta observância?[6] Extrairei alguns trechos: “se incrementaram as montagens judiciais e as detenções massivas como método de retaliação contra aqueles que se negam a cooperar com o exército, usando como prova o depoimento de desmobilizados, ou dados fornecidos pelas tropas que não chegam nem a ser constitutivos de indício de atividades ilícitas. As detenções massivas também estão se produzindo contra opositores dos projetos mineiros e energéticos. Um plano sistemático contra a Marcha Patriótica e o Congresso dos Povos e suas organizações integrantes nas regiões, o que resulta muito preocupante por antecedente de extermínio da UP”. “Persiste a prática ilegal do exército de realizar blitz inesperadas para forçar o recrutamento de jovens campesinos...” As empresas transnacionais estão ocupando enormes territórios, gerando graves conflitos..., e se vão erigindo numa espécie de “estados dentro do Estado”. Violam com impunidade normas trabalhistas, ambientais e tributárias e impõem à população restrições de mobilidade como ocorre com Pacific Rubiales, que transfere para as comunidades sua “crise”, aumentando pobreza, desemprego, ademais de repressão e destruição ambiental histórica ou das multinacionais do carvão [Drummond, Goldman Sachs, Cerrejón-Glencore-BHP e outras] no Cesar”. Essa é sua carniceira paz senhor Santos? Poderia percorrer com estas linhas todo o território nacional e o quadro se repete.
E novamente a paz ultrajada com a lei de restituição de terras de seu governo, outra farsa para os que buscam justiça. Não, não serve. Tal é o caso dos pequenos mineiros do sul de Bolívar aos quais se lhes despojou do território em que viviam e trabalhavam. Sua pertinaz luta durante 11 anos termina flutuando entre ar nauseabundo e fedor dos direitos desfeitos.[7] Ou a daqueles que empreenderam marcha para recuperar as parcelas que lhes foram arrebatadas 15 anos atrás com ciladas, agressão e pressões. Me relembra essa canção “Lamento Borincano”, que pouco ou nada sentirão os de sua oligárquica classe. Em Urabá homens e mulheres, crianças e velhos saem pela vereda, pensam remediar sua situação, palavras de ordem alegres ao passo de seu andar, seus cartazes dizem “terra e paz”, ao chegar se encontram com a crua realidade; e, como o “jibarito”, tristes voltam à margem da rodovia.[8] Senhor presidente Santos, é evidente que a paz de seu governo tem o selo das elites corruptas e farisaicas; é evidente que a paz concebida a partir da riqueza e dos privilégios, a partir dos que favorecem o grande capital, a partir dos que detêm o poder, é contrária e oposta de como a concebe, a sente e a vive o povo. E assim o expressou o povo com veemência na marcha do 9 de abril. Nela a paz emergia como um animal ferido com sede de justiça social, de equidade, de democracia, de soberania, uma paz concebida como a realização plena dos direitos todos, saúde, educação, alimento, teto, a vida, o direito à terra e ao território. Vocês arruinaram os direitos do povo com os espinhos venenosos do seu mal nascido poder.
Que brutalidade! Feridos, mortos e encarcerados por lutar por seus direitos, vítimas nos campos e nas cidades, inclusive os que não estavam armados!, que não estavam combatendo e não brotaram por efeito do conflito ou enfrentamento armado de sua classe com a insurgência. Porém, tem você o cinismo à flor da pele, culpar a outros pelo dessangramento e a crueldade em que vem se debatendo o povo colombiano. Não, senhor Santos. Assumam sua responsabilidade!, isto não é novo nem excepcional, não são fatos isolados. Ouvi dizer e compartilho que a responsabilidade de uma guerra incumbe, em primeiro lugar, aos que a provocam, então e não precisamente são responsáveis os que se indignam e a convocam ou os que, com o supremo direito à rebelião, a enfrentam.
Eu creio, senhor Santos, talvez por apegar-me à esperança, que você é incoerente, ou por acaso são as habilidades de um jogador de pôquer? Que se pretenda a paz fazendo a guerra? Isso e nada é o mesmo. Pelo Cessar-fogo Bilateral se pronunciam diversas organizações sociais, políticas, ambientais, nacionais e internacionais. Foi também uma palavra de ordem arejada na marcha do 9 de abril. Também que abra os diálogos com toda a insurgência, o Exército de Libertação Nacional e o Exército Popular de Libertação, pois, como se entende uma divisão desta forma? Se lhes pede, se lhe roga, se lhe exige que cessem as operações militares, os brutais bombardeios que tudo destroem!, que cesse o dessangramento!, que esta aposta não seja unilateral. Relembro que um trecho do informe da delegação de Paz da insurgência dizia que no marco do cessar unilateral “o exército está realizando operações ofensivas contra as insurgências, dando-se casos de execuções de guerrilheiros que estavam feridos e, portanto, fora de combate”. A meu ver, esses assassinatos são mais que covardia, isso é outra mostra dos vis métodos com que os militares enfrentam ao adversário.
E isso me lembra o ocorrido recentemente no norte do Cauca em que perderam a vida 11 soldados. Pessoas também do povo que vocês usam como bucha de canhão. Porque não temos visto que os da oligarquia ponham seu peitinho, nem mandem seus filhos a tal ex abrupto. Diz o exército que foram atacados como se fossem mansas pombas, que se meteram ali “buscando proteger a população civil para enfrentar aos grupos criminosos que delinquem ali”, são palavras do General Valencia, não minhas. Quando o que os militares fizeram foi violar o DIH ao instalar suas casernas em meio à população civil, pondo-a assim em risco. Depois em seus meios de comunicação exacerbam e deformam os fatos para fazer uma propaganda contra os diálogos. O descaramento é que pouco disseram quando seu exército, aproveitando a trégua unilateral das FARC-EP, matou pelo menos 20 guerrilheiros em Nariño.*[9] É que a vida vale segundo seu critério? e “a vida não vale nada se ignoro que o assassino trilhou por outro caminho e prepara outra cilada”.*[10] Não pretenderão que, ao meter-se em terreno do adversário com armas e equipamento militar, exercer operações militares em todo o país, e em razão de que a outra parte esteja em trégua, estes fiquem quietos esperando que os matem? E por acaso devemos recolher-nos sem contestar sua versão? Eu vi como mentem uma e outra vez: é que temos de fazer caso omisso da versão da outra parte da contenda?
Nas cidades, senhor Santos, também sentimos a paz ultrajada, ferida, quase sem respiro, sumida e subsumida no modelo neoliberal que vocês, as elites com cheiro de enxofre, implementam. Essa injustiça que você, de tão grande linhagem, descendente dos que manejaram o país, não quer que se toque. Foi do primeiríssimo que nos diálogos em Havana deixaram sentado. E que ironia, os “maus”, segundo vocês advogando pelos anseios populares, e vocês, os “bons”, agindo contra esses anseios. Vocês reabastecidos de riqueza decidindo os destinos do povo com ácido muriático. Nas cidades não é mais que ver crianças e velhos jogados nas ruas buscando nos lixos restos de pão, para vocês são invisíveis, os ninguéns não interessam. Que os trabalhadores tenham salários de fome, que lhes importa, se são vocês os que decidiram que ganhem no mês o que vocês gastam numa noite de farra e diversão, a tal terceirização para cortar seus direitos. O povo amontado como animais cercados nos cordões de pobreza e miséria, enquanto vocês em luxuosas mansões se apropriam da cidade privatizando até as ruas e as árvores e as flores. A saúde e a educação como negócios de alta corrupção. Longo capítulo implicaria referir como se expressa a paz nas cidades com o selo da peçonha oligárquica. Mas não posso omitir, assim seja em curtas linhas, o incremento das ameaças a líderes, ativistas sociais, defensores de DDHH, organizações sociais. Os assassinatos seletivos como o que no início do ano se infringiu sobre o dirigente do Congresso dos Povos. [11] E, como se fosse pouco, se lhe soma o descumprimento de todo e qualquer acordo com os setores populares, a impunidade mais atroz, os terríveis campos de concentração e tortura, os cárceres de toda impiedade com o putrefato poder que vocês derramam.[12]
Senhor Santos, entenderá porque não posso despedir-me com meus melhores desejos para você e os de sua classe. Me empenho em crer que um dia desaparecerão da face da terra e que o povo vencerá para viver um novo amanhecer. Vocês impuseram a guerra e o povo imporá a Paz.

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Nota: Meu intento por não fazer longo este artigo foi impossível. Muitos fatos que ocorreram no presente ano de 2015 necessitariam ser registrados. A magnitude do que tem sido a política contrária à paz deste governo é impossível de se sintetizar em poucas páginas. Selecioná-los é outro risco, ao final não apliquei um critério estrito, mais bem algo ao acaso. Não cito todas as fontes consultadas, porém cada fato registrado podem encontrá-lo na rede.



(1) 40% do território colombiano está pedido em concessão para a mineração multinacional. Mais de um terço das transnacionais são estadunidenses.


(2) Os anos mais violentos da guerra em Colômbia remetem à década dos ’40, particularmente 1946-1950, superados em anos recentes pelos crimes do paramilitarismo [estratégia estatal].
(3)  81 novas vítimas de deslocamento por Hidroituango.
(4) Brutal e selvagem repressão a cortadores em greve - Agencia Prensa Rural
(5) Era santista: Novo massacre indígena no Norte ..Anncol.
(6) Colômbia: Nem pós-conflito nem normalidade em Direitos. 
(7) Despojo de pequenos mineiros no sul de Bolívar...
(8) Para estes 100 campesinos a lei de restituição de terras.Las2orillas.
(9) Exército aproveita trégua unilateral das FARC EP e mata pelo menos 11 guerrilheiros em Nariño
(10) Canção: La vida no vale nada vem ao caso.
(11) Denúncia pública pelo assassinato de Carlos Alberto Pedraza Salcedo. La Pluma NET ..
(12) Colômbia e o Movimiento Nacional Carcelario: kaos en la Red



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Vencer a batalha das ideias

Por Emir Sader

“E quando, finalmente, a esquerda chegou ao governo, tinha perdido a batalha das ideias.”A afirmação de Perry Anderson sintetiza o maior desafio para os que queremos superar e substituir o neoliberalismo em todas suas dimensões.

Significa que o neoliberalismo fracassou como proposta econômica, o que abre a possibilidade para que a esquerda apareça como alternativa de governo. Quando chega ao governo, tem que enfrentar toda a herança maldita do neoliberalismo: recesso, enfraquecimento do Estado, desindustrialização, fragmentação social, entre outras coisas.

Mas, além disso, tem que enfrentar o elemento de maior força do neoliberalismo, a nível de cada pais, mas também a nível internacional: sua força ideológica, a força do “modo de vida norte-americano”, que impõe sua hegemonia de forma quase inquestionada em escala global.

O estilo de consumo shopping center se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Por isso o shopping center é o exemplo mais claro do que se convencionou chamar de “não lugares”.

O shopping costuma não ter nem janela, nem relógio. Entrar em um desses espaços é se desvincular das condições de vida nas cidades como efetivamente existem, para se articular com a rede de consumo globalizada, mediante às marcas e seu estilo de consumo. Com o conjunto de “vantagens” que traz o shopping center -  proteção do mal tempo, do roubo, com lugar para estacionar, com grande quantidade de cinemas, de lugares para comer, além da diversidade de marcas, todas globalizadas – representa um instrumento poderoso de formas de vida, de sociabilidade, construídas em torno do consumo e dos consumidores.

O shopping center é a utopia neoliberal e expressa, da forma mais acabada – junto com a publicidade, as marcas, a televisão e o cinema norte-americanos, entre outros instrumentos – a hegemonia do modo de vida norteamericano. Lugar que ocupa praticamente sem questionamentos, salvo resistências do islamismo ou dos evangélicos.
A luta antineoliberal conseguiu impor consensos no plano econômico contra a centralidade do mercado, a favor da prioridade das políticas sociais, por exemplo. Mas não gerou ainda valores, formas de sociabilidade, alternativas ao neoliberalismo e a seu mundo de valores mercantilizados. É certo que há mecanismos monstruosos de promoção dos valores neoliberais, mas também é certo que não temos valores alternativos – solidários, humanistas – que apareçam como alternativas.
As politicas sociais dos governos pós-neoliberais tem um caráter solidário e humanista, mas não fomos capazes de traduzi-las em formas de sociabilidade, em valores, alternativos ao egoísmo consumista do neoliberalismo.
Não se pode simplesmente incorporar propostas anti-consumistas, em sociedade em que o acesso ao consumo é uma conquista para a grande maioria da população. Acesso que traz, junto, as vantagens do consumo e, por extensão, promove o mundo do consumo – incluído o shopping center – como um objetivo de vida. Assim, não se trata de uma batalha simples. Mas é indispensável para a construção de um mundo solidário e humanista.
Sem a critica do egoísmo consumista dominante, da falta de solidariedade – especialmente com os mais frágeis -, nao conserguiremos avançar contra a forte hegemonia ideológica do neoliberalismo e ganhar a decisiva batalha das ideias, decisiva nos enfrentamentos centrais do mundo de hoje.



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domingo, 3 de maio de 2015

Colômbia: o maior obstáculo para um acordo de paz é o interesse geoestratégico dos EUA

Em 2001, o doutor e antropólogo Alberto Pinzón Sánchez formou parte de uma comissão encarregada de assentar as bases para uns acordos de paz entre a guerrilha das FARC e o governo de Andrés Pastrana. Uma década depois, os atuais diálogos em Havana parecem oferecer a esperança de pôr termo ao conflito armado mais longo na América Latina.

Que riscos continuam estando presentes no processo de resolução do conflito? Atualmente exilado na Europa, Alberto Pinzón Sánchez nos ajuda a entender o que está em jogo em Havana através de um olhar pleno de compromisso pelo futuro de seu país.
Alex Anfruns: Em 2001, sua nomeação para uma comissão com o nobre objetivo de assentar as bases para os diálogos de paz em San Vicente del Caguán e resolver o conflito em Colômbia terminaram lhe valendo a perseguição política e o exílio. Você pode explicar-nos que pretexto se utilizou com essa finalidade?

Alberto Pinzón Sanchez:
Sim. Obrigado por colocar-me em contato com teus leitores e permitir-me informar em primeira mão sobre o acontecido: Como é sabido, a comissão de 4 membros nomeada pela mesa do Caguán esteve integrada pelo magistrado Vladimiro Naranjo, pela dona do jornal El Colombiano de Medellín, pelo diretor do diário alternativo Voz Carlos Lozano e eu; tínhamos a missão de formular recomendações para diminuir a intensidade do conflito e para terminar o fenômeno do paramilitarismo, que nesse momento e como parte oficial integrante do Plan Colômbia vinha promovendo uma ofensiva político-midiática e de terror para cooptar definitivamente a totalidade do Estado.
Efetivamente, é o que sucedeu um ano depois com a chegada de Uribe Vélez à presidência da Colômbia. Obviamente, nossas recomendações, as quais hoje, depois de 14 anos, encontro totalmente vigentes, não agradaram ao Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia que havia proposto os diálogos de paz do Caguán como uma tomada de ar político para promover o rearmamento militar do exército e da polícia da Colômbia, contemplado no Plan Colômbia, o qual foi aprovado entre Clinton e Pastrana em 1997, um ano antes do início dos diálogos de paz. Olhando isto hoje, se pode dizer que, à luz do Direito Internacional Humanitário, foi uma violação que o governo Pastrana fez, chamada “perfídia”. Então, o chefe máximo dos Paramilitares Carlos Castaño iniciou uma ofensiva midiática para deslegitimar a comissão em seu conjunto em especial, como ameaçou na página 312 de seu libro “Mi confesión” [“Minha confissão”] contra mim por considerar-me “um porta-voz do Comandante Alfonso Cano”. Às ameaças pela internet, seguiram tentativas reais de acabar com minha vida e me obrigaram a exilar-me na Europa em busca de refúgio, onde me encontro há 13 anos sem poder regressar ao meu lar em Colômbia.
Pode-se constatar que a repressão de caráter político que dura há décadas em Colômbia não só continua se produzindo como também evoluiu para formas de castigo preventivo, conduzindo a um elevado número de prisioneiros políticos, ao caso extremo dos “falsos positivos” e ao descobrimento de numerosas fossas comuns. Os perigos que espreitam ao povo colombiano continuam sendo, portanto, consideráveis. Que passos considera você que sejam chaves no desmantelamento da impunidade judicial?
Sim, as cifras de 70 anos do chamado conflito interno colombiano, que não é outra coisa senão uma “guerra suja contra insurgente promovida pelo Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia” [BPCID] são aterradoras: Mais de um milhão de mortos, a maioria deles fuzilados pelo aparato repressivo do regime. Mais de 4 milhões de deslocados internos, aos quais se lhes arrebatou 5 milhões de hectares de terra cultivável. Uma expulsão de mais 5 milhões de imigrantes econômicos e exilados políticos em diversos países do mundo e que o regime chama piedosamente de “a diáspora colombiana”.
O extermínio de 5.000 quadros políticos do partido de Esquerda União Patriótica. Cerca de 2.000 casos dos chamados “falsos positivos” causados pelo exército colombiano e que é a forma mais inumana e cruel da luta de classes conhecida no mundo. E de momento 90 mortos assassinados do Movimento Social e Político, em especial da Marcha Patriótica; e que conste que não mencionamos nem aos professores, nem aos sindicalistas, nem aos líderes comunitários, nem aos mendigos, nem dependentes de drogas, nem os transformistas sexuais etc., vítimas invisíveis do que em Colômbia se chama da “limpeza social de descartáveis”. Acrescentemos a estas cifras macabras 9.500 presos políticos que estão apodrecendo amontoados nas masmorras do regime.
Obviamente, tudo isto tem sido possível pela impunidade judicial que em Colômbia alcança a aberrante cifra de 97%. Este é a voo de pássaro o macabro inferno do Terror do Estado, chamado eufemisticamente pelo regime de “conflito colombiano’.
Se temos em conta a longa história do conflito, assim como as consequências paradoxais porém significativas de sua própria experiência pessoal, pareceria precipitado sacar conclusões esperançosas. Qual é a responsabilidade do governo acerca do fenômeno do paramilitarismo? e quais são os principais interesses que estão em jogo, cujo peso tenha influído historicamente de maneira mais decisiva no bloqueio de uma solução pacífica?
O paramilitarismo é uma roda dentada a mais da grande e terrorífica máquina repressiva punitiva e de disciplinamento social que se chama Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia [BPCID] construído há cerca de 70 anos e que tem várias rodas dentadas mais, como por exemplo:
1 – O exército e a polícia ou Força Pública.
2 – As companhias multinacionais como Chiquita, Drummond, Coca Cola, Oxy, BP, Repsol e outras multinacionais mineiro-energéticas.
3 – As bases militares dos EUA onde operam militares e agentes de inteligência “oficiais” estadunidenses, junto com “intermediários privados de mercenários” como a DynCorp.
4 – Os chamados grupos econômicos dos cacaus, como o grupo Bavaria, grupo Ardila Lulle, grupo Sarmiento Angulo, Grupo Antioquenho.
5 – As associações gremiais como Fedegán, Sac, Augura, Andi, Fedemetal, Fenalco, Asobancaria agrupados no “conselho gremial nacional”.
6 – O chamado Estado Nacional através de suas três ramificações: a esfera executiva, a esfera legislativa ou parapolítica e a esfera judicial encarregada de produzir a impunidade e a judicialização a que nos referimos anteriormente.
7 – O oligopólio dos meios de comunicação da família Santos e dos grupos espanhóis Prisa e Planeta.
8 – Os Narcotraficantes e lavadores de dólares a nível nacional, regional e local.
9 – As classes subalternas como pequenos comerciantes, empregados, jornalistas, profissionais independentes, médios proprietários, transportadores, desempregados, comerciantes informais e lumpens, que se submeteram ou foram cooptados.
10 – A casta política ou parapolítica com todas as suas imbricações regionais e locais. Todo este Bloco dominante é coordenado e dirigido pela fração hegemônica da oligarquia que agora mesmo se encontra numa aguda disputa de frações entre Santos e Uribe por sua supremacia.
Em resumo, o principal obstáculo é o interesse Geo-Estratégico que os EUA têm sobre a Colômbia e a área do Caribe. Depois lhe seguem os interesses concretos de cada uma das rodas dentadas do Bloco do Poder Contra Insurgente [BPCI] do qual formam parte essencial os EUA.
Que condições pensa que devam ser respeitadas para que a guerrilha das FARC, após decidir por uma trégua unilateral, tenha oportunidades para sua reconversão como oposição política no jogo democrático?
Creio que a questão não é armas por política, mas sim armas por reformas básicas. Agora bem, todos estes detalhes parece que são as curvas do acordo que se está construindo em Havana.
Que mecanismos considera que permitiriam tomar um maior protagonismo ao povo colombiano, fazendo prevalecer os interesses da maioria acima dos da oligarquia?
Sem dúvida alguma, a mais ampla e democrática participação popular que se concentraria numa Assembleia Nacional Constituinte.
Segundo seu ponto de vista, que fases deveriam ser privilegiadas doravante na consolidação de um processo de paz justo e duradouro?
Primeiro, uma trégua bilateral com a criação de um clima favorável e democrático de verdadeira discussão popular sobre as reformas básicas que o povo trabalhador colombiano necessita e quer, para depois desembocar na Assembleia Nacional Constituinte.

--
Equipe ANNCOL - Brasil
anncol.br@gmail.com
http://anncol-brasil.blogspot.com
Postado por Ninfeia G às 10:25 Nenhum comentário:
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