sexta-feira, 22 de maio de 2015

Tempo de Armistício

Por Iván Márquez

Integrante da Delegação de Paz das FARC-EP
Sustentar, como se fez numa edição da Revista SEMANA, que dialogar em meio ao conflito não tem outra opção, porque não há maneira de verificar uma trégua, é sugerir que a paz ou o pós acordo seria impossível se se lhe aplicasse o mesmo argumento. O sofisma não consegue tapar o desejo subjetivo de que o cessar-fogo bilateral favorece o fortalecimento político e militar da guerrilha.

A paz não é assunto de vontades indecisas que se lançam pelo atalho de negar o cessar-fogo sobre a base de leituras enviesadas da trégua de ‘84, conceituando-a como “desastre”, só para afogar a voz multitudinária do sentido comum que o reclama.

O cessar-fogo se sustenta num profundo sentimento de humanidade. Nada sacamos se seguimos nos matando em meio a um diálogo que deve culminar num Acordo Final. O que se busca é fechar a porta a novas vitimizações e, como complemento, cercar com o silêncio dos fuzis e dos explosivos os diálogos de paz para que estes avancem sem sobressaltos para seu objetivo supremo.

Os que negam este anseio coletivo subestimando o papel da verificação, aduzem “que ademais há delinquência comum e narcotráfico que se confundem com a rebelião e que até um bêbado disparando tiros num povoado pode acabar com a trégua bilateral”. Essa visão não somente insinua um Estado pintado na parede, que deixa fazer e deixa passar, como também ignora a existência de um acordo parcial na Mesa de Havana endereçado a solucionar o problema das drogas ilícitas. Encerra em si uma grande confusão, que não permite distinguir a rebelião como direito natural dos povos, de atuações próprias de bandos delinquenciais. Nem fugazmente contempla a ideia da possibilidade de cooperação entre as partes antes confrontadas. Assim, não consegue sequer se colocar no nível de uma regular exposição de motivos para vender a ideia da concentração da força guerrilheira em pontos.

Alguns, inclusive, imaginam umas FARC confinadas em áreas demarcadas sob a vigilância seráfica de sua contraparte contendora. Esta pretensão numa era de efetiva aplicação de tecnologia militar de ponta ao conflito interno colombiano resulta algo ingênua. O importante é deter o fogo, interpor diques que encerrem o capítulo de mais vitimizações inúteis.

A 27 de maio de 1984, o Presidente Belisario Betancur e o comandante das FARC Manuel Marulanda Vélez emitiram quase simultaneamente a ordem de Cessar-Fogo, a qual foi acatada plenamente pela força insurgente. Não ocorreu o mesmo com o senhor general Miguel Vega Uribe, quem, imediatamente depois da ordem do Palácio de Nariño, emitiu a controversa resolução 001 do Comando do Exército que incitava as tropas oficiais ao desacato, alegando –em aberta insubordinação ao chefe constitucional das Forças Armadas- que, acima de tudo, cumpririam o mandado da Carta, de marcar presença em todo o território nacional.

Dessa maneira se foi gerando um ambiente muito nocivo que favoreceu múltiplas escaramuças, as quais alcançaram sua máxima expressão na emboscada do exército a uma coluna da Quinta Frente das FARC em 30 de novembro de 1985 em Cañas, jurisdição de Turbo [Antioquia], onde morreram 22 guerrilheiros e 17 terminaram feridos. Esse foi o começo da deterioração e do solapamento seriamente daquele cessar-fogo, e não as invenções que seus adversários propalam. Mais tarde, em junho de 1987, se produziu a emboscada das FARC ao exército em Riecito, entre Puerto Rico e San Vicente del Caguán, onde perderam a vida 27 soldados e outros 43 ficaram feridos. Já estava em marcha a matança ordenada pelo Estado contra a União Patriótica.
Esta triste experiência deve ser recolhida para evitar sua repetição. Num ambiente favorável como o que se respira hoje, com avanços tangíveis na Mesa de Conversações com o bom entendimento e contato direto entre generais em serviço ativo e comandantes guerrilheiros, e numa situação em que se vislumbra a possibilidade do fim do conflito armado, o armistício como prelúdio da paz é a medida mais sensata que devemos tomar.

A mobilidade das forças em seus espaços habituais não será um problema se ao mesmo tempo está a decisão de cessar os enfrentamentos armados. Os protocolos são determinantes, e sua aplicação minimiza os riscos. A palavra empenhada e a assinatura de um pacto entre as partes, somadas a uma verificação eficiente e ao respaldo massivo da cidadania, criará uma atmosfera ideal para terminar de redigir o grande acordo de paz que inaugure uma nova era de convivência e reconciliação em Colômbia.
-- 
Equipe ANNCOL - Brasil
                                                                                                                                              

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A via bloqueada com violência


Essa via fechada violentamente é a que devemos abrir entre todos e todas com a força da  razão.
A proposta de paz com justiça social, democracia popular, ainda que cheire a pleonasmo, e soberania, sustentada pelas FARC-EP desde sua gênese, explica sua presença na Mesa de Conversações em Havana. Sua convicção na saída dialogada não é um novo invento e muito menos produto de uma suposta derrota militar. A Missão de sua Delegação de Paz não tem fins retorcidos nem duplos. Algo difícil de entender por aqueles que fazem de sua vida um enredo de calúnias.
Perdem seu tempo e esforços os pseudo analistas buscando explicações diz-que profundas a um fato singelo, que consiste em que a luta revolucionária da organização guerrilheira não implica a guerra como um fim, já que a guerra foi imposta pelo estabelecimento e seus determinadores estrangeiros.
No Programa Agrário dos Guerrilheiros, primeiro documento oficial das FARC-EP, proclamado a 20 de julho de 1964 no fragor da resistência em Marquetalia, se explica com clareza o porque da luta armada e os pretextos assumidos pelo regime para a agressão, quando diz:
Nós outros somos revolucionários que lutamos por uma mudança de regime. Porém queríamos e lutávamos por essa mudança usando a via menos dolorosa para nosso povo: a via pacífica, a via democrática de massas. Essa via nos foi bloqueada violentamente com o pretexto fascista oficial de combater supostas ‘repúblicas independentes’ e como somos revolucionários que de uma ou outra maneira jogaremos o papel histórico que nos corresponde, nos restou buscar a outra via: a via revolucionária armada para a luta pelo poder”.
E o pretexto variou com o passar do tempo, de repúblicas independentes cabeça de praia do comunismo internacional passamos a ser narcoguerrilhas e depois claramente narcotraficantes, depois ameaça terrorista, narcoterroristas e por último simplesmente bandidos. Sempre na ideia de vedar toda possibilidade de expressão da legítima rebeldia que encarnamos.
De passagem, o Programa Agrário informa do fracasso das gestões para evitar a guerra, ao afirmar:
Nós outros batemos em todas as portas possíveis em busca de auxílio para evitar que uma cruzada anticomunista, que é uma cruzada contra nosso povo, nos conduzisse a uma luta armada prolongada e sangrenta”
E há que dizê-lo com toda franqueza, faltou força para acabar com o propósito de extermínio e o sonho de solucionar com operações militares os problemas sociais e políticos. Os pobres da Terra se expressaram, também intelectuais de estatura mundial, o âmbito cultural se solidarizou, porém foi insuficiente, os ricos de Colômbia foram insensíveis a essas manifestações, tal como hoje setores dessa oligarquia o são e por isso cobiçam descarrilar o processo de diálogos.
A Guerrilha Fariana nasce empunhando a bandeira da paz com todo vigor.
Também se revela a violência sustentada no tempo contra o povo e suas organizações, pois conta como: “Contra nós outros se desencadearam no curso dos últimos anos quatro guerras: uma, a partir de 1948; outra, a partir de 1954; outra, a partir de 1962; outra, a partir de 18 de maio de 1964, quando os Altos Mandos declaram oficialmente que nesse dia começava a ‘Operação Marquetalia’.”
Algo que corroborou o informe da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, uma de suas muitas contribuições ao esclarecimento da verdade histórica.

-- 
Equipe ANNCOL - Brasil

Acordemos um plano piloto de substituição de cultivos

Por Carlos Antonio Lozada

Integrante do Secretariado do Estado-Maior das FARC-EP
Não podemos menos que saudar a decisão do Presidente Santos de suspender as fumigações com glifosato. Uma decisão sensata ainda que tardia.
O debate aberto devido à decisão é igualmente positivo na medida em que envolve distintos setores sociais e políticos, instituições e personalidades de diferentes âmbitos do quefazer nacional, num enriquecedor exercício de discussão, acerca de um dos grandes problemas do país, como o é a existência dos cultivos de uso ilícito e da política antidrogas, que busca acabá-los.
De tempo atrás, as FARC-EP temos mantido uma postura contrária ao tratamento militar que se tem dado ao problema dos cultivos de uso ilícito, por parte do Estado e dos governos de turno. Desde nossa visão, e pelo conhecimento que temos da realidade que se vive nas regiões onde se plantam estes cultivos; temos sustentado que, por se tratar de um fenômeno claramente socioeconômico; ademais, a solução a esta problemática deve conter essencialmente medidas econômicas e sociais.
Apesar de que cultivadores e consumidores constituem os elos mais frágeis da cadeia do narcotráfico, é sobre eles que tem se centrado sua guerra as políticas antidrogas; algo totalmente contrário à lógica. Porém, claro, não é que os governos e os Estados não o saibam; o que sucede é que os interesses das elites que governam em Colômbia e nos Estados Unidos, que é onde projetam essas políticas, correm por um trilho diferente aos interesses dos colombianos e dos norte-americanos em abundância; o das elites são os negócios, e o narcotráfico o é e dos mais vultosos do mundo, incluindo as fumigações e tudo o mais que rodeia essas políticas antidrogas.
Porém, é ademais –a luta contra o narcotráfico- uma eficaz alavanca da geopolítica norte-americana, na medida em que por trás dela esconde seu intervencionismo, porém esse é um assunto que escapa às limitações deste escrito.
Se, de verdade, se quisesse acabar com o narcotráfico, simplesmente o que teria que se fazer é legalizar o consumo, desativando assim o aríete que eleva os lucros do negócio; porém, esse tampouco é o assunto que desejamos abordar.
Agora, bem, mais além de rechaçar os frágeis argumentos daqueles que têm se pronunciado anunciando o apocalipse como consequência da suspensão das fumigações, o que realmente desejamos é formular uma proposta que nos ponha no caminho da solução definitiva do problema; pois nada ganhamos se, como já insinuam alguns, deixamos de usar o glifosato para substitui-lo por outro veneno.
Já tendo firmado um acordo parcial sobre o ponto 4 da agenda que privilegia a substituição combinada com as comunidades dos cultivos de uso ilícito, por q ue não começar sua implementação através de um plano piloto, orientado a partir da Mesa e com apoio e assessoria da comunidade internacional, para ser desenvolvido numa região ou num município, que, ademais de maneira simultânea, pode ser complementado com outro acordo humanitário para a descontaminação de explosivos da mesma zona?
Não é esta uma oportunidade de ouro para que as partes demonstremos com fatos nossa irrenunciável decisão de avançar em direção à terminação do conflito?
Por acaso, pode haver maior demonstração da vontade das partes de trabalhar pela desescalada do conflito que desenvolver de maneira pactuada e conjunta planos como o que propomos?
Não é esta uma boa maneira de derrotar o ceticismo frente às possibilidades reais de uma paz com justiça social e desenvolvimento das regiões?

-- 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Ciclo 36: “Ou combinamos ou erramos”

Por Matías Aldecoa
Os magros avanços nas discussões entre as FARC-EP e o Governo nos induz a parodiar o mestre do Libertador, Simón Rodríguez, quando escreveu “inventamos ou erramos”. A combinação de um acordo no ponto Vítimas da Agenda Geral exige do Governo tomar em consideração o produto de seis meses de trabalho da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas (CHCV).
A 4 de maio o Comandante Marco León Calarcá expressou que o informe da Comissão Histórica não “pode ser ignorado ou trivializado” porque é um “insumo fundamental para a compreensão das complexidades do conflito e das responsabilidades daqueles que tenham participado ou tido incidência no mesmo e para o esclarecimento da verdade”. Ler comunicado
A dívida moral, política e social do Estado está amplamente fundamentada nos informes da CHCV. No entanto, este é só um insumo que contribuirá com a tarefa da Comissão de Esclarecimento da Verdade e não Repetição, na iminência de compor-se por mandato da Mesa de Diálogos. Esta nova comissão –como as FARC a concebem-, “se trata de um mecanismo extrajudicial de investigação, esclarecimento e sanção [...] para alcançar eficazmente a reconciliação, a reparação integral das vítimas, a restauração do dano causado a estas, ao tempo em que se constroem sólidas garantias de não repetição dentro do novo cenário social que surja da implementação dos acordos”.

Que se passa com o tema Vítimas?
O silêncio oficial em torno do conteúdo do informe da CHCV e a paralisação do tema Vítimas da Agenda deixam a descoberto a perigosa intenção de Juan Manuel Santos de não reconhecer as responsabilidades que cobrem ao Estado e às Instituições na origem, persistência e impactos do conflito social e armado em nosso país.
O comandante Ricardo Téllez, da Delegação de Paz das FARC-EP, em 6 de maio havia relembrado publicamente ao Governo que a organização insurgente já apresentou a totalidade das propostas mínimas sobre o ponto 5, Vítimas, que se discute desde maio de 2014 sem que se tenha podido ser esgotado. São em total 216 iniciativas contidas em dois documentos. “...as vítimas têm direito a serem ressarcidas pelos danos que sofreram por causa do conflito e restabelecidos seus direitos transformando suas condições de vida”, ao tempo em que “deverão proporcionar-se plenas garantias de não repetição”, anotou o chefe guerrilheiro.
A causa do retardamento é atribuível exclusivamente à delegação do Governo que inseriu outros temas que, se bem que é necessário discutir de acordo com a ordem estabelecida pela Agenda, ainda não é o momento de fazê-lo. Tudo indica que –pela alta culpa do Estado e da classe governante no conflito-, demorar seu reconhecimento público proporciona mais rendimentos a Santos nesta época de campanha eleitoral.

É a doutrina…
A tragédia da guerra em Colômbia esteve durante décadas oculta para o mundo inteiro e só veio a conhecer-se de nosso país e de sua conflitividade social e política a partir do auge do narcotráfico e da guerra declarada ao povo colombiano, com o respaldo em recursos financeiros, armas, tecnologia e corpos de oficiais dos Estados Unidos, os quais subordinaram os oficiais e tropas do Exército, da Armada, da Força Aérea e da Polícia, numa demonstração de indignidade e entrega da soberania não comparável com qualquer outro país de Nossa América.
O sustento desta política servil e antipatriota tem sido a doutrina da segurança nacional que considera inimigo a todo contraditor das políticas governamentais, o que encaminhou para a escalada do conflito desde “baixa” e “média intensidade” até a degradação vivida na recente voragem na qual aos lutadores sociais “se lhes destroçou com motosserras, se lhes incinerou nos fornos crematórios, outros foram atirados aos rios, a fossas comuns ou despojados violentamente de suas terras”.
Mais recentemente, durante os períodos de governo de Álvaro Uribe, enquanto Juan Manuel Santos atuava como Ministro de Defesa, milhares de jovens desempregados foram assassinados para serem mostrados como guerrilheiros mortos em combate e com isso os oficiais do poder cobrarem os incentivos monetários pagados pelo Estado por matar, com o que têm alimentado uma antimoral mercenária que nada tem a ver com o publiticado heroísmo que a propaganda da Força Pública proclama.

Quem firmou a Diretiva 029 do Ministério de Defesa que desatou os crimes de lesa-humanidade, denominados “falsos positivos”?
Com guerra suja não teremos paz”
Neste mesmo sentido, a 7 de maio de 2015 a comandante Érica Montero, integrante da Delegação de Paz das FARC-EP, proclamou que “o desejado cenário do pós acordo de paz para a Colômbia não poderá ser se antes não se desmonta efetivamente o paramilitarismo”. Ao relembrar os assassinatos de Guadalupe Salcedo –chefe da guerrilha liberal do Llano- em 1957; o de Jacobo Prías Alape, quem fora chefe da guerrilha de Los Comunes, que tinha deixado as armas, em 1960; e o de Carlos Pizarro, assassinado 48 dias depois de ter oficializado a desmobilização e entrega de armas do M-19; a comandante guerrilheira expressou que o eventual acordo de Havana deve ser construído sobre certezas e dotar-se de políticas efetivas e ferramentas conceituais que permitam prevenir mais uma traição, que o povo colombiano não perdoará.
Estes crimes, o extermínio da União Patriótica e muitos outros deixaram a marca da intolerância política e do tratamento criminal, que ao longo do último século as elites governantes dos dois partidos tradicionais, Liberal e Conservador, têm dado aos setores populares que têm tentado construir alternativas que lhes ofereçam a possibilidade de exercer amplamente seus direitos. Tal intransigência combinada com uma concepção militarista em nosso país tem sido uma política de Estado cuja aberração tem sido o espantalho do paramilitarismo. “...não poderá dar-se a transformação de uma organização armada em movimento político aberto para debater nas praças públicas ideias e visões de país, sem armas, se não se desmonta o paramilitarismo de Estado disfarçado de bando criminal...”, especificou a chefa guerrilheira.
A Delegação de Paz das FARC-EP está propondo na Mesa a composição de uma comissão que esclareça o fenômeno do paramilitarismo, não só para definir as responsabilidades específicas e para investigar a persistência das ações “paramilitares” nas regiões como também porque este é um ponto crucial sem cujo esclarecimento a Agenda de Havana não avançará e porque o povo colombiano necessita da paz.  Leia FARC propõem sistema de alerta por presença paramilitar nos territórios

A hora da Constituinte
Finalmente, no encerramento do ciclo 36 de conversações, Iván Márquez anunciou que chegou a hora de apostar numa Constituinte que sirva de base para empreender uma nova era de transformações sociais; que garanta a segurança pessoal e coletiva e o bem viver para todos.
O chefe da Delegação de Paz das FARC-EP destacou em sua intervenção que a agenda de descontaminação do território de artefatos explosivos tem seguido seu curso com compromissos das duas Partes, assinalando que este fato, “somado à decisão das FARC-EP de seguir mantendo o cessar unilateral de fogos e hostilidades ofensivos, por tempo indeterminado, deixa entrever que se vão aplanando obstáculos antes considerados intransponíveis”.
Para o ciclo 37 se esperam novos avanços da Subcomissão Técnica na discussão do cessar-fogo bilateral e fim do conflito.
-- 
Equipe ANNCOL - Brasil

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A palha no olho alheio

Por Timoleón Jiménez
Comandante-Chefe das FARC-EP
Cremos que não só a nós outros, como insurgência revolucionária, nos resulta urgente e necessário que o Exército de Libertação Nacional se vincule aos diálogos de paz. Também ao governo nacional e ao conjunto da população colombiana. É o justo e por sua vez o mais prático”.

Cdte. Timoleón Jiménez
Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP
Considero pertinente um breve comentário em torno da notícia, confirmada pelo Presidente Santos, sobre a reunião que celebramos o Comandante Nicolás Rodríguez Bautista e eu na cidade de Havana no mês de abril passado.
Colômbia é um país ensanguentado desde há mais de cinco décadas, o qual, com independência dos enfoques políticos, constitui uma autêntica tragédia para nossa nação. Desejar a paz e trabalhar por consegui-la constituem gestos do mais digno aplauso.
Expusemos ante a opinião nossas avaliações em torno das políticas de toda ordem que o atual governo nacional pratica. Isso não nos impede estimar no mais alto grau a decisão do Presidente Santos de buscar uma saída dialogada ao conflito armado interno.
Não foi fácil combinar o Acordo Geral publicado em setembro de 2012, e não foi um caminho de rosas avançar até o alcançado hoje. Desde a interpretação mesma dos alcances da Agenda, as posições, na maioria dos casos, foram abertamente contrárias.
Se acrescentamos a isso os ódios e rancores, as posições radicais, os chamados contínuos à guerra total, a propaganda suja, as campanhas de difamação, a obstinação na rendição e outras pérolas pelo estilo, como se empenham certas pessoas, a paz se converteria em algo impossível.
Cremos que não só a nós outros, como insurgência revolucionária, nos resulta urgente e necessário que o Exército de Libertação Nacional se vincule aos diálogos de paz. Também ao governo nacional e ao conjunto da população colombiana. É o justo e por sua vez o mais prático.
Por isso, o Presidente Santos autoriza o mencionado encontro dos comandantes das duas forças rebeldes em Havana, com a colaboração e o apoio dos países acompanhantes e garantidores da Mesa de Conversações com as FARC, aos quais agradecemos sua disposição.
Posso dizer que vi no Comandante Nicolás Rodríguez a um homem profundamente convencido da importância da paz combinada, e igualmente preocupado pela conquista da firma de um acordo que permita o começo das conversações diretas entre governo e ELN.
A decisão de empreender o caminho da solução dialogada é um fato no ELN, porém tem se defrontado com dificuldades sérias. Com o camarada Gabino enfatizamos como o segredo e a confidencialidade foram regras absolutas na fase exploratória entre as FARC-EP e o governo.
Essa, infelizmente, não tem sido a situação com as aproximações entre o ELN e a administração Santos. As pressões promovidas contra os adversários que tentam aproximar-se são muito grandes, justo no momento em que são mais necessárias a confiança e a prudência.
As campanhas difamatórias dos grandes meios de comunicação, unidas às irresponsáveis e falsas imputações que diariamente brotam da extrema-direita delirante e guerreirista, que hoje com cinismo se lamenta como perseguida política, escasseiam e dificultam o clima de entendimento.
Uma pessoa não consegue entender como a Comissão de Acusações da Câmara de Representantes abre inquérito contra o Presidente Santos por uma denúncia falsa do Centro Democrático, quando transcorreu mais de uma década sem que mova um só dedo contra o Presidente Uribe, sobre quem recai um escandaloso prontuário conhecido internacionalmente.
Será porque as gestões do Presidente Santos têm relação direta com um ousado esforço por conseguir e deixar uma Colômbia em paz para nossos netos, já que nossos filhos não a tiveram, enquanto que as do segundo têm que a ver com o paramilitarismo e o terror de Estado?
Sinistros personagens que ingressavam pela porta traseira na Casa de Nariño, com plano de entrevistar-se com altos funcionários dependentes diretos do senhor Presidente, não chegam a constituir indícios de atividade criminal em Palácio. Há aqueles que só veem a palha no olho alheio.

Montanhas de Colômbia, 12 de maio de 2015.

-- 
Equipe ANNCOL - Brasil

A criminalização das ideias

Por Alexandra Nariño
Integrante da Delegação de Paz das FARC-EP
Ultimamente se fala muito da necessidade de gestos de paz. As FARC-EP apresentamos ao Governo uma longa lista de 17 gestos de paz por nossa parte, incluída a libertação de vários prisioneiros, de alguns infiltrados em nossas fileiras pelo Exército e cinco cessar-fogos, dos quais o último está concebido por tempo indeterminado.
Porém, para mim, o maior gesto que a guerrilha fez em prol da paz em Colômbia, a favor da vida e acedendo ao mandato dos e das colombian@s, foi o de chegar à Mesa de Conversações pedindo não mais que umas simples e mínimas medidas para conseguir condições de vida dignas e espaços democráticos para todos e todas. O que estamos dizendo é: “cumpram as normas democráticas assim como estão escritas, para que possamos fazer política sem sermos assassinados. Daí já veremos como vamos levar a cabo as transformações revolucionárias que realmente queremos, não se preocupem por isso senhores”.
Quer dizer, já desde o início destas negociações nosso ponto de partida foi a consecução da democratização do país. Em nenhum momento pedimos mudanças revolucionárias, porque entendemos que estas não serão levadas a cabo por um regime político como o atual. Assim que começamos a redigir primeiro dezenas, depois centenas de Propostas Mínimas, que se chamam mínimas precisamente porque se remetem ao marco da democracia e não ao programa máximo das FARC-EP.
O Governo tem se movido desde o princípio dentro de uns parâmetros muito mais estreitos; a máxima concessão que fez na Mesa de Conversações foi comprometer-se com o cumprimento da Constituição e das leis da Colômbia. E isso porque em muitas ocasiões fomos as FARC as que reclamamos respeito e acatamento destas.
Muitas zombarias foram feitas na Mesa a esse respeito; a guerrilha em defesa das leis! As FARC se tornaram constitucionalistas agora, que tal? A guerrilha representante da ONU etc.
No entanto, por trás dessas zombarias se esconde uma realidade bastante desalentadora: a realidade de um país em que o centro da batalha das ideias está se movendo cada vez mais para a direita. Se está direitizando a opinião pública, ao mesmo tempo em que aumenta a criminalização das ideias progressistas ou inclusive democráticas, até tal ponto que se tornou revolucionário defender a Constituição, ou até o ponto em que as pessoas que coincidem em qualquer projeto com nós outros são estigmatizadas e rotuladas de terroristas.
Para a mostra, um botão. Pedir a suspensão imediata de uma substância que envenena sistematicamente as pessoas, a flora e a fauna do país se tornou agora uma proposta radical porque foi lançada pelas FARC. E qualquer proposta feita pela guerrilha é radical, descabida ou cínica. Defendem o indefensável pela única razão de que defender o contrário seria apoiar uma ideia das FARC.
Então teremos que tachar agora de radicais a Organização Mundial da Saúde e ao ministro de Saúde Alejandro Gaviria Uribe por se atreverem a chamar publicamente a finalizar as fumigações com glifosato, baseando-se em evidência científica de milhares de pesquisas de universidades em todo o mundo, os quais certamente também serão terroristas ou castro-chavistas...
Que fazer?, perguntou Lênin. Será que é melhor pronunciar-nos a favor da utilização do glifosato, para que o mundo inteiro se volte a exigir o fim de seu uso?

-- 
Equipe ANNCOL - Brasil

A 70 anos do dia da vitória contra o Nazismo

COMANDANTE FIDEL CASTO SUSTENTA:
Nosso direito a ser Marxistas-Leninistas
O líder histórico da Revolução, ao comemorar-se o 70º aniversário da Grande Guerra Pátria, expressa sua profunda admiração pelo heroico povo soviético que prestou à humanidade um colossal serviço

Depois de amanhã, 9 de maio, se comemorará o 70º aniversário da Grande Guerra Pátria. Dada a diferença de hora, quando elaboro estas linhas, os soldados e oficiais do Exército da Federação Russa, plenos de orgulho, estarão exercitando na Praça Vermelha de Moscou com os rápidos e marciais passos que os caracterizam.
Lênin foi um genial estrategista revolucionário que não vacilou em assumir as ideias de Marx e levá-las a cabo num país imenso e só em parte industrializado, cujo partido proletário se converteu no mais radical e audaz do planeta após a maior matança que o capitalismo havia promovido no mundo, onde pela primeira vez os tanques, as armas automáticas, a aviação e os gases asfixiantes fizeram sua aparição nas guerras, e até um famoso canhão capaz de lançar um pesado projétil a mais de cem quilômetros fez constar sua participação na sangrenta contenda.
Daquela matança surgiu a Liga das Nações, uma instituição que devia preservar a paz e não conseguiu sequer impedir o avanço acelerado do colonialismo na África, grande parte de Ásia, Oceania, do Caribe, Canadá e um grosseiro colonialismo na América Latina.
Apenas 20 anos depois, outra espantosa guerra mundial explodiu na Europa, cujo preâmbulo foi a Guerra Civil em Espanha, iniciada em 1936. Após a massacrante derrota nazista, as nações depositaram suas esperanças na Organização das Nações Unidas, que se esforça por criar a cooperação que ponha fim às agressões e às guerras, onde os países possam preservar a paz, o desenvolvimento e a cooperação pacífica dos Estados grandes e pequenos, ricos ou pobres do planeta.
Milhões de cientistas poderiam, entre outras tarefas, incrementar as possibilidades de sobrevivência da espécie humana, já ameaçada com a escassez de água e alimentos para milhares de milhões de pessoas num breve lapso de tempo.
Já somos 7 bilhões e 300 milhões os habitantes no planeta. No ano de 1800 só havia 978 milhões; esta cifra se elevou a 6.070 bilhões em 2000; e em 2050, segundo cálculos conservadores, haverá 10 bilhões.
Desde logo, apenas se menciona que à Europa Ocidental chegam embarcações repletas de emigrantes transportados em qualquer tipo de barco, um rio de emigrantes africanos, do continente colonizado pelos europeus durante centenas de anos.
Há 23 anos, numa Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, expressei: “Uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer pela rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o homem.” Não sabia então, no entanto, quão perto estávamos disso.
Ao comemorar-se o 70º aniversário da Grande Guerra Pátria, desejo fazer constar nossa profunda admiração pelo heroico povo soviético que prestou à humanidade um colossal serviço.
Hoje é possível a sólida aliança entre os povos da Federação Russa e o Estado de mais rápido avanço econômico do mundo: a República Popular Chinesa; ambos países com sua estreita cooperação, sua avançada ciência e seus poderosos exércitos e valentes soldados constituem um escudo poderoso da paz e da segurança mundial, a fim de que a vida de nossa espécie possa ser preservada.
A saúde física e mental e o espírito de solidariedade são normas que devem prevalecer, ou o destino do ser humano, este que conhecemos, se perderá para sempre.
Os 27 milhões de soviéticos que morreram na Grande Guerra Pátria fizeram-no também pela humanidade e pelo direito a pensar e a ser socialistas, ser marxistas-leninistas, ser comunistas, e a sair da pré-história.

Equipe ANNCOL - Brasil
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...