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domingo, 31 de março de 2013
A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico
Por Eliane Brum)
O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.
- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...
O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)
Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:
- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.
A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.
Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.
Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.
É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.
Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.
Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.
Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.
Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.
Original em http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html
Verdade: uma tentativa de compreensão

sábado, 30 de março de 2013
As empregadas e a escravidão
Por: Urariano Mota
Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.
Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica, de gênio do futuro, Joaquim Nabuco sem pausa continuou, num encanto que esconde a crueldade:
“Ela (a escravidão) espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor...”.
Penso na primeira frase de Nabuco, a da escravidão como característica do Brasil, nestes dias em que o Congresso dá um primeiro passo para a superação da herança maldita. Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas, da nova lei sobre a qual os jornais tanto têm falado como num aviso: “patroas, cuidado, domésticas agora têm direitos”. Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo. No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural... os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho.
Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê. Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase: “a senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente”. A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”.
O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, creio que sobreviverá até mesmo à nova lei. É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda. É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem. É justo, não é? O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.
Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro. Não estranhem, porque não exagero. Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.
Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em democracia para todas as classes sociais. Menos para as empregadas, é claro. "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”, dizia Nabuco.
Urariano Mota é jornalista, escritor, poeta e colaborador do Vermelho.
Original em http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=209566&id_secao=10
sexta-feira, 29 de março de 2013
“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”
Entrevista com Giorgio Agamben
“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.
Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.
Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.
A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo].
***
O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?
“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.
A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?
A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.
A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?
Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.
O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?
Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.
O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?
Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.
A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal, o futuro será melhor do que o presente?
Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.
Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.
Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização. Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.
Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav),
Publicado em 31/08/2012 em http://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben/
sexta-feira, 8 de março de 2013
A morte de um revolucionário de Nuestra América
Por Renán Vega Cantor
Tradução: Joaquim Lisboa Neto
“A morte não é verdade quando se cumpriu bem a obra da vida”
José Martí
A terça-feira 5 de março de 2013 ficará na história deste continente como o dia em que faleceu o comandante Hugo Chávez Frías, presidente constitucional da Venezuela, um revolucionário dignamente integral de Nuestra América, cuja imagem, ideal e projeto já formam parte da legendária constelação de lutadores anti-imperialistas e anticapitalistas deste lado do planeta.
Nesta hora de profunda dor para os lutadores do mundo, é necessário recordar o caráter revolucionário da vida e obra deste líder da Venezuela, com independência das incertezas políticas que o futuro imediato lhe depare a este país e a toda América Latina, pelo precoce desaparecimento físico deste notável personagem.
1
Sem pretender ser exaustivo em momentos em que a tristeza nubla o pensamento, basta mencionar algumas de suas contribuições revolucionárias. Para começar, a figura e o projeto de Hugo Chávez emergiram quando o neoliberalismo – isto é, o capitalismo realmente existente – se vangloriava vaidoso por Nuestra América e pelo mundo, sem desafios nem obstáculos à vista, enceguecido pelas falácias do “fim da história” e do “choque de civilizações”, propagados pelo imperialismo estadunidense e seus súditos locais. Este neoliberalismo vinha acompanhado da retórica da globalização, como uma suposta realidade irreversível ante a qual nada se podia fazer e à qual deviam se submeter os países, o que significava na prática aceitar o domínio das Empresas Transnacionais e suportar como algo normal o saqueio dos recursos naturais.
Eram os momentos de embriaguez, euforia e esplendor da “nova ordem mundial”, que havia sido proclamada por George Bush pai, logo após a Primeira Guerra do Golfo [1990-1991] e a dissolução da União Soviética [1991] e que havia conduzido nos Estados Unidos ao apogeu da “nova economia” durante o governo de Bill Clinton [1993-2001], e a supor que essa efêmera prosperidade especulativa, baseada na bolha punto.com, ia ser eterna.
Pois bem, para o imperialismo, essa embriaguez se converteu numa amarga ressaca quando na Venezuela se começaram a produzir notáveis mudanças a partir de 1998, ano em que Hugo Chávez ganhou as eleições e convocou uma Assembleia Constituinte que pôs fim ao domínio partidarista do punto fijismo e questionou o modelo neoliberal que havia afundado na miséria a maior parte dos venezuelanos. A primeira contribuição revolucionária de Hugo Chávez se apóia, então, em ter nadado contra a corrente, em instantes em que ninguém se atrevia a fazê-lo, e todos aceitavam como evidente o fundamentalismo de mercado, a globalização e o Consenso de Washington. Questionar o neoliberalismo e embarcar num projeto diferente, visto em perspectiva histórica, se converteu num feito revolucionário porque rompeu águas em meio à aceitação submissa da ordem existente. Isso supôs, na prática, que desde Venezuela se impulsionaram propostas encaminhadas, por exemplo, a reorganizar a Organização de Países Exportadores de Petróleo [OPEP], o que envolveu a recuperação do preço do cru para os países petroleiros, algo que até esse momento se considerava como herético, porque supostamente os preços das matérias-primas não poderiam subir, porque assim o determinava o “mercado”.
2
Em segundo lugar, e acompanhando ao anterior, o discurso e a prática de Hugo Chávez assumiram uma postura anti-imperialista, porque rapidamente se evidenciou que os Estados Unidos – em concordância com sua vocação histórica de considerar nosso continente como seu “pátio traseiro” – não tolera nenhuma política nacionalista, soberana e independente e está disposto a fazer tudo o que seja para liquidar os líderes e governos que se atrevam a questionar sua hegemonia. E, efetivamente, na medida em que o projeto bolivariano na Venezuela projetava uma recuperação da soberania nacional e energética e propunha políticas redistributivas de tipo interno, imediatamente os interesses coligados das classes dominantes locais e dos Estados Unidos começaram a operar para impedir a consolidação desse projeto, como se evidenciou durante estes 15 anos, porém cujos fatos mais evidentes foram o fracassado golpe de Estado de 2002 e a paralisação petroleira de PDVSA, entre fins do mesmo ano e inícios de 2003.
O anti-imperialismo de Chávez se manifestou nos mais diversos cenários onde, diferentemente de todos os sipaios pró-estadunidenses [como os da União Europeia ou da América Latina], falou claro e chamou ao pão, pão, e ao vinho, vinho. Foi dos poucos que, no mundo, se atreveu a criticar os crimes imperialistas em Iraque e Afeganistão, assim como as ações genocidas de Israel contra os palestinos ou contra o Líbano, um feito notável em meio à aceitação desses crimes por parte da maior parte dos governos latino-americanos. Porém, o mais significativo, quanto a conquistas desta luta anti-imperialista, se manifestou no enterro do projeto imperial da ALCA, que feneceu em 2004 nas terras de Argentina, e que não pôde ser imposto ao continente na forma original, como havia sido concebido pelos Estados Unidos, que buscava ter um mercado aberto à sua disposição para seus investimentos, que cobriria desde o norte do México até a Patagônia. O fracasso da ALCA está diretamente relacionado com a decisiva atuação de Hugo Chávez, quem se encarregou não só de denunciá-la, como também em propor outras formas de integração para o continente.
3
Justamente, este é um terceiro aporte revolucionário de Hugo Chávez, porque recuperou o legado integracionista de Simón Bolívar, José Martí, José Artigas, César Augusto Sandino e outros lutadores de Nuestra América. Esses projetos de integração, que antes eram simples ideias, começaram a converter-se em realidade [como a ALBA e o MERCOSUL] graças à decisiva participação do governo bolivariano da Venezuela e a seu propósito de buscar outros caminhos diferentes à falsa integração neoliberal hegemonizada pelos Estados Unidos. Evidentemente, isto se baseou na atualização do ideal bolivariano de uma pátria grande, na qual os povos se ajudem mutuamente, algo que Chávez fez efetivo com o estabelecimento de mecanismos comerciais solidários, como os que efetuou com Cuba e com outros países do Caribe. Se poderá dizer que essa integração está engatinhando e que não avançou tanto como devia, porém esse fato certo não pode ignorar que no continente latino-americano se voltou a falar de um tema tabu para as classes dominantes de cada país, que é o da integração mais além dos Estados Unidos e sem os Estados Unidos.
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Em quarto lugar, Chávez voltou a pôr sobre o tapete de discussão e reflexão o horizonte do socialismo, porque se atreveu a propor, contra as correntes dominantes, inclusive no seio de uma esquerda temente e submissa ao capitalismo, que era necessário construir outro tipo de sociedade, diferente da de hoje imperante em nível mundial. A esse projeto ele denominou de o “socialismo do século XXI”, com o qual resgatou uma palavra que havia sido esquecida no mundo após o colapso da URSS nos inícios da década dos 1990 e quando se pensava que esse assunto havia desaparecido de qualquer agenda política, ante o que se considerava como um irreversível triunfo do capitalismo.
Ainda que se alegue que nem na Venezuela nem em outros países da região se tenha avançado na construção de tal socialismo, não se pode desconhecer a importância de voltar a perguntar-se, como o fez o falecido presidente venezuelano, se o capitalismo é eterno e imodificável e se as lutas que contra ele se empreendam não podem projetar outro tipo de sociedade. Isto faz parte do abc de qualquer programa revolucionário anticapitalista desde o século XIX, que se acreditava sepultado, porém que na Venezuela foi recuperado e novamente aparece no imaginário de importantes lutadores e pensadores anticapitalistas da América e do mundo. Na raiz desta recuperação conceitual de tipo político, setores da esquerda voltaram a falar em voz alta e sem temores da necessidade de construir outra ordem, que vá mais além do capitalismo, que aprenda das experiências negativas do século XX, sem renegar o caráter igualitário e democrático de um projeto anticapitalista.
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Em quinto lugar, socialismo quer dizer, em sentido profundo, lutar pela igualdade – que não é sinônimo de homogeneização e erradicação das diferenças –, uma palavra que quase havia desaparecido da conceitualização política e inclusive do léxico corrente, e que foi substituída por um vocábulo que tem sido intoxicado pelo neoliberalismo – via Banco Mundial –, que é o de equidade. Este termo, nesta lógica mercantil, não tem nada a ver com a igualdade, senão que é o reconhecimento das desigualdades como algo natural, em nome do qual se afirma que se devem proporcionar iguais oportunidades na competição – entre um gerente de uma multinacional e um trabalhador assalariado, para assinalar um caso, para que ambos concorram nas mesmas condições para ocupar um lugar na classe executiva de um avião transcontinental. Como encarnação de um projeto socialista, Chávez enfrentou a desigualdade na Venezuela, com resultados positivos quanto à diminuição da pobreza nesse país, por ter permitido o acesso à educação, à saúde, ao lazer e à cultura importantes setores da população, antes excluídos de todos esses direitos.
Com suas políticas redistributivas, Chávez voltou a evidenciar a importância do Estado como um ator fundamental da sociedade, o que levou a impulsionar o gasto público na direção das maiorias sociais, em momentos em que os países europeus, onde tanto se presumia de haver construído sociedades de bem-estar mais ou menos igualitárias, assumem a fundo o projeto neoliberal e aumentam as desigualdades, ao tempo em que privatizam a saúde e a educação.
A luta pela igualdade levou a que na Venezuela importantes setores da população, até há pouco tempo subjugados por sua condição de classe e de “raça”, tenham adquirido consciência de seus direitos, de sua força coletiva e de seu poder de decisão, já que foram os suportes essenciais dos 14 triunfos eleitorais de Hugo Chávez, e os que impediram que se consolidasse o golpe de Estado de abril de 2002. Daí o grande carisma e ascendência de Chávez entre esses setores invisíveis e esquecidos pelo capitalismo periférico venezuelano, que nos últimos anos – desde o caracazo de 1989 – emergiram como o sujeito social mais importante da história contemporânea desse país. E daí também o ódio visceral que contra eles manifestam as classes dominantes e as classes médias da Venezuela e do resto do mundo, porque finalmente o que não se aceita e se despreza é que os pobres, os cafuzos, os afros, os indígenas, as mulheres pobres tenham direitos e se proclamem como iguais aos “brancos” pró-imperialistas.
Este mesmo fato explica essa grande onda internacional de racismo desfechada contra o comandante Hugo Chávez na autodenominada “imprensa livre” do mundo, na qual se incluem a rádio, a televisão e os meios impressos, que nos últimos 15 anos bateram todos os recordes de sevícia desinformativa, de mentiras e intrigas, quando de falar de Venezuela e de seu presidente se trata. Esta campanha forma parte já da história universal da infâmia, na qual sicários e criminosos, com microfone e com processador de palavras, recorreram a todas as mentiras para enlamear a vida de Chávez e para qualificá-lo como “ditador”, “tirano” e outros epítetos, entre os quais aparecem denominações racistas, que não vamos recordar aqui, por sua baixeza moral.
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Hugo Chávez foi um personagem notável na política venezuelana e latino-americana por seu carisma, sua influência popular, sua capacidade discursiva, sua vivacidade, sua originalidade, sua inventiva, seus dotes histriônicos, porém, sobretudo por atuar como um educador e pedagogo prático. Este é outro de seus aportes revolucionários, que já se evidenciou desde quando participou num mal-sucedido golpe de Estado contra o regime neoliberal de Carlos Andrés Pérez em 1992, porque as palavras pronunciadas no momento de render-se tiveram grande impacto na população, e fizeram-no conhecido ante a Venezuela e o mundo. Desse momento adiante, as milhares de reuniões, assembleias, conversas e conferências nas quais participou se converteram em eventos de tipo educativo, que conferiram um caráter revolucionário a sua ação e a sua palavra, isto é, foram dardos contundentes contra as evidências estabelecidas como verdades inquestionáveis sobre o capitalismo, o neoliberalismo e a globalização.
Para entender este assunto, é bom recordar que os políticos contemporâneos se desempenham como se fossem bonecos amestrados, como os apresentadores de televisão, que se limitam a repetir sempre o mesmo discurso, frio, aborrecido, sem alma e sem vida, sem abandonar o roteiro preestabelecido e entoando sempre seu insuportável vocabulário neoliberal. Chávez rompeu com tudo isso ao empregar uma linguagem simples, descomplicada, direta, sem usar eufemismos e atrevendo-se a chamar os criminosos por seu nome [como fez com George Bush na ONU ou com um ex-presidente colombiano ao qual qualificou, como o que é, de mafioso], porque se baseava na máxima atribuída a José Gervasio Artigas, e que lhe agradava citar, “com a verdade nem ofendo nem temo”.
Porém, há outra contribuição revolucionária de Hugo Chávez em suas alocuções e conferências: a reivindicação da leitura. Isto é importante recordar num momento em que ninguém lê nada, começando pelos presidentes e funcionários governamentais – ou acaso alguém com dois dedos além do nariz crê seriamente que alguma vez leram um livro personagens tão “cultos” como Carlos Menem, Álvaro Uribe Vélez, Juan Manuel Santos, José María Aznar, Juan Carlos de Bourbón, George Bush ou Mariano Rajoy?–. Nas conversações e encontros que Chávez realizava, costumava citar e fazer alusões a autores diversos da tradição socialista e revolucionária de Nuestra América e do mundo, e vale recordar suas menções a Eduardo Galeano, István Mészaros, León Trotsky, Noam Chomsky, entre alguns. E, ao mesmo tempo que em suas conversas mencionava livros e autores, também anunciava a necessidade de difundi-los, coisa que efetivamente se fez, porque na Venezuela se tem editado milhões de exemplares a baixos preços de clássicos do pensamento revolucionário universal.
7
Sem esgotar o assunto nesta nota, tais são alguns dos principais aportes revolucionários de Hugo Chávez, cuja figura e realizações já formam parte da história do continente e, sobretudo, da história dos esquecidos e dos vencidos. Chávez, como o proclamava sabiamente José Martí, foi um homem de seu tempo e de todos os tempos, porque soube encarnar no momento adequado um projeto antineoliberal e anti-imperialista para enfrentar o que se concebia como inatacável em seu país e no continente. Ele soube entender as necessidades mais sentidas do povo venezuelano, empobrecido e humilhado pelo capitalismo neoliberal e, nesse esforço por afrontar a miséria que esse sistema gera, fez contribuições reais ao ideário anticapitalista do mundo. Como alguma vez disse Jorge Plekhanov, ao analisar o papel do indivíduo na história: “Um grande homem, o é não porque suas particularidades individuais imprimam uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas sim porque está dotado de particularidades que lhe convertem no indivíduo mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época”. E isso se aplica cabalmente ao caso de Chávez, que serviu às necessidades sociais não só do povo venezuelano como também dos povos de todo o continente.
Certamente, Chávez foi, como todos nós, um ser humano de carne e osso, com suas próprias contradições e limitações, tanto em suas formulações como em suas realizações práticas. É elementar que os revolucionários são seres humanos e não deuses, em razão do que acertam e se equivocam, porém justamente são revolucionários, porque maiores são seus acertos que seus erros, porque estão convencidos da importância de lutar contra a ordem estabelecida, em troca do qual dão tudo, até a própria vida, e porque com sua luta deixam um esplendor de exemplo e dignidade, que os engrandece ante seus contemporâneos e serve de legado a outras gerações. Chávez foi um formidável revolucionário – um vocábulo que não tem nada a ver com as capelas de iluminados de todas as seitas de esquerda –, que brindou mais aportes reais à luta por outra sociedade que centenas de doutrinados puristas, que, tanto hoje como ontem, o qualificaram como “populista”, “caudilho” ou coisas pelo estilo.
E seu caráter de revolucionário fica evidenciado nestes momentos se nos fixamos em quem são os que choram por ele e os que se alegram por sua morte. Choram-no os pobres de seu país e muitos pobres de outros lugares do mundo. Choram os que entendem o que significa a perda de um valioso líder da esquerda internacional. Choram-no os que na Venezuela e em outros países sentiram o que significa a solidariedade, em instantes em que se impôs como se fosse parte da natureza humana o egoísmo e o individualismo neoliberal. Estes são os que nos importam, enquanto as bestas carniceiras da morte [encabeçadas pelo Partido Republicano dos Estados Unidos] se lambem de felicidade pela morte de um perigoso inimigo, como o expressam sem estardalhaço, através de seus pornográficos meios de incomunicação, chamem-se El País, Clarín, El Tiempo, CNN, Caracol, RCN ou como seja.
Chávez já é um patrimônio dos revolucionários do mundo e seu nome permanecerá na memória não somente do povo venezuelano, mas também dos povos de Nuestra América e isto deve orgulhar aos revolucionários, por dolorosa e dura que seja sua partida, e pelas difíceis e incertas que sejam as lutas que se avizinham. Enquanto isso, todos os seus detratores e seus inimigos do capitalismo e do imperialismo, entre esses muitos pigmeus morais e insignificantes indivíduos que se desempenham como presidentes de muitos países – representantes incondicionais dos exploradores e das classes dominantes – não ficarão sequer no cesto de lixo da história e mais rápido do que previsto serão esquecidos.
Porque, como disse com intensidade César Vallejo em seu vibrante poema Masa, que parafraseamos: “Não morras comandante, te queremos tanto”, e cujo belo texto é uma alegoria da maneira como a memória do revolucionário Hugo Chávez permanecerá em Nuestra América:
Ao fim da batalha,
e morto o combatente, veio para ele um homem
e lhe disse: “Não morras, te amo tanto!”
Porém o cadáver, ai!, seguiu morrendo.
Dois dele se aproximaram e repetiram:
“Não nos deixes! Coragem! Volte à vida!”
Porém o cadáver, ai!, seguiu morrendo.
Acorreram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: “Tanto amor, e não poder nada contra a morte!”
Porém o cadáver, ai!, seguiu morrendo.
Cercaram-no milhões de indivíduos,
com uma súplica comum: “Fica, irmão!”
Porém o cadáver, ai!, seguiu morrendo.
Então, todos os homens da Terra
cercaram-no; viu-lhes, o cadáver, triste, emocionado;
incorpora-se lentamente
abraçou o primeiro homem; lançou-se a andar...
(*) Renán Vega Cantor é historiador. Professor titular da Universidad Pedagógica Nacional, de Bogotá, Colômbia. Autor e compilador dos livros Marx y el siglo XXI (2 volúmenes), Editorial Pensamiento Crítico, Bogotá, 1998-1999; Gente muy Rebelde, (4 volúmenes), Editorial Pensamiento Crítico, Bogotá, 2002; Neoliberalismo: mito y realidad; El Caos Planetario, Ediciones Herramienta, 1999; entre outros. Prêmio Libertador, Venezuela, 2008.
sábado, 2 de março de 2013
As finanças secretas e caóticas da Igreja Católica
Marcelo Justo(Carta Maior)
A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as
indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis
e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Em
entrevista à Carta Maior, o jornalista Jason Berry, fala sobre as
finanças secretas da Igreja Católica, tema que foi objeto de sua
investigação nos últimos 25 anos. Essa história, segundo ele, remonta
à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para
neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano. A reportagem é de
Marcelo Justo.
Marcelo Justo
Londres - O Papa Bento XVI abandona o barco em meio a sérios problemas
financeiros. A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do
Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número
decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo
pontífice herdará. Ninguém sabe exatamente quanto gasta a Igreja
Católica em nível mundial, mas segundo uma investigação da revista
inglesa The Economist, publicada no ano passado com base em dados de
2010, a cifra rondaria os 170 bilhões de dólares. Em um livro sobre as
finanças secretas da Igreja Católica, o jornalista Jason Berry, que
investigou o tema nos últimos 25 anos, afirma que a estrutura
financeira da igreja é “caótica” e “opaca”.
Em entrevista à Carta Maior, Berry falou das dificuldades econômicas
do Vaticano que, para ele, remetem à guerra fria e à massiva injeção
de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido
Comunista Italiano, então o mais poderoso da Europa ocidental.
Carta Maior: Como é a estrutura financeira da Igreja Católica em nível mundial?
Jason Berry: A Igreja Católica é muito hierárquica, monárquica eu
diria, com o Papa como líder e dioceses dirigidas por arcebispos e
bispos em todo o globo. Mas, em virtude de seu próprio tamanho, é
internamente caótica e ingovernável. Cada bispo trabalha em sua
diocese como se estivesse comandando um principado.
CM: O que sabemos de concreto sobre a riqueza do Vaticano?
JB: Há uma absoluta opacidade nas contas. Quando o Vaticano declara
suas rendas e gastos anuais não inclui o Instituto para as Obras de
Religião, o IOR, mais popularmente conhecido como o Banco do Vaticano,
cujos fundos são estimados em cerca de 2 bilhões de dólares. O IOR tem
sido administrado em um clima de absoluta falta de transparência, o
que o converteu em um veículo perfeito para o trânsito de todo tipo de
fundos. Mas agora, com a investigação do Banco Central da Itália sobre
lavagem de dinheiro, isso está mudando.
CM: Segundo algumas informações, o Vaticano tem interesses em uma
empresa de espaguete, no setor financeiro, aviação, propriedades e uma
companhia cinematográfica. Diz-se, inclusive, que controla entre 7 e
10% da economia italiana. Mas, dada a opacidade de suas contas, até
onde é possível confirmar essas informações?
JB: Há informação disponível a instituições que nos permite saber onde
está o dinheiro do Vaticano. Na Itália, o Vaticano investiu muito no
Banco de Roma, que foi fundamental na reconstrução da Itália depois do
“Risorgimento” no século XIX. Também tem negócios na área dos
transportes públicos. A isso deve-se somar propriedades na própria
Itália, na Europa e nos Estados Unidos. O Vaticano chegou a ser um dos
proprietários do edifício Watergate, do famoso escândalo que provocou
a renúncia de Richard Nixon. O grande tema hoje em dia é averiguar até
onde prestou serviços a clientes que o utilizam como um banco “off
shore”.
CM: Que impacto econômico os escândalos sexuais tiveram nas finanças da igreja?
JB: Nos Estados Unidos esse impacto foi muito forte. As dioceses e
ordens religiosas pagaram mais de dois bilhões de dólares. Em muitas
cidades tiveram que fechar igrejas. Los Angeles, Chicago e Boston,
três das mais importantes arquidioceses, tiveram um rombo médio de 90
milhões de dólares em seus fundos de pensão.
CM: Em seu livro “Vows of Silence” você fala do fundador dos
Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel que chegou a
controlar um império de 650 milhões de dólares e contou com a proteção
do Papa João Paulo II, apesar das denúncias de abusos sexuais. Maciel
teve fortes vínculos com o governo de Pinochet no Chile e com os
governos da América Central. Há alguma figura equivalente na igreja de
hoje?
JB: Maciel foi o mais bem sucedido coletor que a igreja teve. Começou
no final dos anos 40 buscando apoio de milionários católicos no
México, Venezuela e Espanha durante a perseguição dos padres no México
e pouco depois da guerra civil espanhola. Com este dinheiro, Maciel
formou sua própria base de poder em Roma e se converteu no porta-voz
do setor mais conservador e militante da igreja. Assim como fez com
Franco, se vinculou muito com Pinochet no Chile. Nos Estados Unidos o
próprio diretor da CIA durante os anos Reagan, William Casey, fez uma
doação de centenas de milhares de dólares aos legionários. Maciel
comportava-se como um político que viajava pelo mundo arrecadando
fundos para fazer avançar a causa do catolicismo conservador e a
agenda política conservadora. Mas a verdade era que toda sua ideologia
encobria um delinquente sexual com poderosos contatos.
Apesar de ter sido acusado de abusar de seminaristas, o Vaticano não o
investigou até 2004, a pedido do cardeal Ratzinger, quando João Paulo
II estava morrendo. Graças a isso sabemos que teve filhos com duas
mulheres no México e que manteve ambos os lares com dinheiro da Legião
de Cristo. O escândalo é que o Vaticano demorou tanto para
investigá-lo e deixou que ele se transformasse em um Frankenstein. Não
há hoje uma figura equivalente no que diz respeito à arrecadação de
fundos.
CM: Há uma longa história de escândalos nas finanças do Vaticano. Nos
anos 80 houve o escândalo do Banco Ambrosiano e seu presidente,
Roberto Calvi, que apareceu enforcado debaixo da ponte de Blackfriars
em Londres. Calvi tinha fortes vínculos com o então presidente do
Banco do Vaticano, o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus. Há uma
continuidade entre esses escândalos e os atuais problemas do banco?
JB: Creio que na realidade é preciso retroagir à Segunda Guerra
Mundial quando a CIA começou a transferir grandes somas para o Banco
do Vaticano. Em 1948, foi a primeira eleição na qual o Partido
Comunista italiano, convertido no mais importante da Europa, buscava o
poder. Neste momento houve uma grande campanha nos Estados Unidos,
patrocinada pelo governo, da qual participou Frank Sinatra, para
financiar a democracia cristã. Este foi o começo da história do
dinheiro que círculos dos serviços de inteligência estadunidenses para
o Vaticano. Uma geração depois, com Roberto Calvi e Marcinkus, o banco
havia se convertido em uma via muito lucrativa para a passagem de
dinheiro. No final dos anos 80, o banco teve que pagar uma multa de
250 milhões de dólares. Já ali o banco funcionava como uma “off shore”
para seus clientes privilegiados. Mas ainda falta muito por documentar
sobre essa história.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
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